Formar para cuidar: emprego, profissionalização e qualidade
O futuro dos cuidados não dependerá apenas do montante que investirmos, das tecnologias que adotarmos ou do número de serviços que formos capazes de disponibilizar. Dependerá, sobretudo, das pessoas que cuidam: da sua preparação, das suas condições de trabalho e da possibilidade de construir uma trajetória profissional reconhecida num setor que sustenta a autonomia, a dignidade e a vida quotidiana de milhões de pessoas.
Cuidar exige humanidade, mas a humanidade não substitui o conhecimento. A boa vontade é indispensável; a improvisação não pode ser o modelo. Em sociedades longevas, formar melhor quem cuida não é uma questão secundária: é uma condição para cuidar melhor.
Um setor essencial que precisa de profissionais
Os cuidados constituem já um dos grandes setores de emprego em Espanha. O estudo do CENIE O Direito ao Cuidado e a Economia dos Cuidados em Espanha estima que cerca de 1,3 milhões de pessoas trabalhavam em 2024 em atividades relacionadas com os cuidados, cerca de 6% do emprego nacional. 87% eram mulheres. No entanto, a importância social do setor continua a não corresponder ao reconhecimento de quem nele trabalha: apresenta taxas elevadas de temporalidade e parcialidade, salários inferiores à média e uma profissionalização desigual.
A questão não é apenas corrigir uma injustiça presente. É também antecipar uma necessidade futura. Até 2030 poderão ser necessários mais de 260 mil profissionais adicionais mesmo num cenário de continuidade, e mais de 400 mil se se pretender alcançar uma cobertura universal dos serviços do Sistema para a Autonomia e Atenção à Dependência.
Não basta, portanto, afirmar que serão precisas mais pessoas. É necessário perguntar como acederão ao setor, como serão formadas, que competências lhes serão reconhecidas e que possibilidades terão de permanecer nele sem se esgotarem ou o abandonarem.
Profissionalizar não é desumanizar
Existe alguma resistência a falar de profissionalização quando falamos de cuidados. Como se formar, certificar ou estabelecer procedimentos pudesse arrefecer uma atividade profundamente relacional. Mas profissionalizar não significa transformar o cuidado numa sucessão de protocolos. Significa oferecer ferramentas para responder melhor a situações complexas.
Cuidar exige conhecimentos técnicos, mas também capacidades relacionais: escutar, observar, respeitar decisões, reconhecer mudanças, acompanhar sem substituir a autonomia. Exige compreender que uma pessoa não é apenas um conjunto de necessidades, mas uma biografia, preferências e um projeto próprio.
A formação não elimina a dimensão humana do cuidado. Protege‑a. Permite que a empatia não dependa do voluntarismo e que a atenção não fique exposta à improvisação, ao cansaço ou à ausência de critérios partilhados.
A formação como porta, não como barreira
Um dos principais desafios consiste em desenhar percursos formativos capazes de responder a trajetórias muito distintas. Há pessoas jovens que procuram a sua primeira qualificação, profissionais provenientes de outros setores, trabalhadoras com anos de experiência não reconhecida e pessoas migrantes que possuem competências valiosas, mas encontram dificuldades para que sejam validadas.
Um sistema demasiado rígido pode deixar de fora precisamente quem já sabe cuidar. Um demasiado permissivo pode comprometer a qualidade. A resposta não está em baixar exigências, mas em construir caminhos mais acessíveis, modulares e flexíveis, que permitam aprender, atualizar conhecimentos e certificar a experiência adquirida.
Reconhecer competências não significa oferecer títulos. Significa avaliar com rigor o que uma pessoa sabe fazer e evitar que anos de trabalho permaneçam administrativamente invisíveis.
Qualidade no emprego, qualidade no cuidado
Não pode haver cuidados de qualidade sustentados em empregos precários. A rotatividade constante impede a construção de vínculos; os horários fragmentados dificultam a continuidade; a sobrecarga aumenta o risco de erros; os salários insuficientes afastam experiência e talento.
O relatório do CENIE insiste numa relação que deveria ser evidente: a qualidade de qualquer sistema de cuidados depende da qualidade do emprego. Melhorar salários, reduzir temporalidade e parcialidade, reforçar a formação e proteger a saúde laboral não são medidas separadas da atenção. Fazem parte dela.
Quando cuidamos de quem cuida, estamos também a cuidar de quem recebe apoio.
Uma conversa necessária em El Escorial
Com este horizonte, o IMSERSO organiza nos dias 13 e 14 de julho de 2026, no âmbito dos Cursos de Verão da Universidade Complutense de Madrid, o curso Percursos formativos para os profissionais dos cuidados. Qualidade no emprego e profissionalização do setor.
O encontro abordará as barreiras de acesso ao emprego, a certificação de competências, a necessidade de percursos formativos mais estruturados e flexíveis, as mudanças normativas associadas ao novo certificado profissional em cuidados e assistência pessoal e os avanços da Comissão Técnica de Qualidade do SAAD. Incluirá também experiências nacionais e internacionais sobre formação, organização do trabalho e inovação na atenção.
Não se trata apenas de um curso sobre formação. É uma conversa sobre o modelo de cuidados que queremos construir. Porque decidir como preparamos, reconhecemos e protegemos os seus profissionais é decidir também que qualidade de atenção consideramos digna.
Do emprego de passagem à trajetória profissional
Durante demasiado tempo, parte do trabalho de cuidados foi tratado como emprego de entrada, de transição ou de último recurso. Essa visão é incompatível com a sua complexidade e com a sua crescente importância.
O futuro exige transformar postos frágeis em trajetórias profissionais: com formação inicial, aprendizagem contínua, reconhecimento da experiência, possibilidades de especialização e condições que permitam permanecer no setor.
As sociedades longevas precisarão de mais profissionais. Mas, sobretudo, precisarão de profissionais reconhecidos, preparados e escutados. A quantidade importa. A qualidade decide.
Informação prática
O curso terá lugar nos dias 13 e 14 de julho de 2026 no Hotel Dorma Victoria Palace, em San Lorenzo de El Escorial, integrado no Programa de Cursos de Verão da Universidade Complutense de Madrid. Está aberto a pessoas interessadas e dirigido especialmente a profissionais dos serviços sociais, pessoal das administrações públicas e pessoas ligadas a entidades privadas ou do terceiro setor. O programa e a informação de inscrição estão disponíveis na página oficial do curso.
O que precisa uma pessoa para transformar o cuidado numa profissão com futuro e não num emprego do qual fugir?