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Investir nos cuidados é investir no país: o Direito ao Cuidado exige fechar a lacuna e ativar o potencial económico do setor
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O relatório “O Direito ao Cuidado e a Economia dos Cuidados em Espanha”, apresentado pelo CENIE, propõe reconhecer o Direito ao Cuidado como um direito social e consolidar os cuidados de longa duração como o quarto pilar do Estado‑Providência perante o desafio de uma sociedade cada vez mais longeva.
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A investigação alerta para uma ampla lacuna de cuidados em Espanha, mas também evidencia o potencial económico do setor: em 2023, 10.623 milhões de euros em prestações de dependência geraram um impacto de 17.260 milhões de euros no PIB; cada euro destinado a prestações de dependência gerou cerca de 1,6 euros de impacto no PIB.
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Entre 2017 e 2025, as prestações do sistema duplicaram e, desde 2015, o denominado “limbo da dependência” reduziu‑se em mais de 70%. No entanto, persistem prazos de acesso próximos de um ano e 72,4% das pessoas com mais de 65 anos com alguma limitação na sua vida diária, bem como 63,1% das que apresentam limitações severas, não recebem atenção efetiva do Sistema para a Autonomia e Atenção à Dependência (SAAD). No final de 2025, o sistema apoiava 1,61 milhões de pessoas.
- Com vista a 2030, o estudo estima que reforçar o SAAD exigiria aumentar o investimento em cerca de 0,6 pontos do PIB, com um potencial de criação de cerca de 430.000 novos empregos e um aumento das receitas públicas equivalente a 0,30 pontos do PIB.
A Universidade de Salamanca, através do Centro Internacional sobre o Envelhecimento (CENIE), apresentou hoje no Círculo de Belas Artes de Madrid o relatório O Direito ao Cuidado e a Economia dos Cuidados em Espanha, uma investigação que coloca a necessidade de reconhecer o Direito ao Cuidado como direito social e de consolidar os cuidados de longa duração como quarto pilar do Estado do bem‑estar. O trabalho enquadra‑se no projeto IBERLONGEVA, aprovado no âmbito do Programa Interreg VI‑A Espanha‑Portugal — POCTEP — 2021‑2027 da União Europeia.
O estudo analisa se Espanha garante de forma efetiva o direito a receber cuidados quando uma pessoa deles necessita, especialmente em contextos de dependência, envelhecimento e perda de autonomia. Para isso, examina o funcionamento do Sistema para a Autonomia e Atenção à Dependência (SAAD), a suficiência dos apoios públicos, o peso dos cuidados informais e o impacto económico de reforçar as políticas de cuidados de longa duração.
Principais conclusões do estudo
Nacho Álvarez e Jorge Uxó, codiretores do estudo, apresentaram as suas principais conclusões: Os cuidados de longa duração devem estar no centro da renovação do Estado do bem‑estar. Os cuidados não podem continuar a ser entendidos apenas como uma responsabilidade privada ou familiar, mas como um direito social, um bem público essencial e uma questão estratégica para a coesão social, a igualdade e a economia.
Produziram‑se avanços importantes no Sistema para a Autonomia e Atenção à Dependência — SAAD —, mas alerta‑se que a sua consolidação continua incompleta. Entre 2017 e 2025, as prestações do sistema duplicaram e, desde 2015, o denominado “limbo da dependência” reduziu‑se em mais de 70%. No entanto, persistem prazos de acesso próximos de um ano e uma brecha de cuidados de 72,4% entre as pessoas maiores de 65 anos com alguma limitação na sua vida diária, e de 63,1% entre aquelas que apresentam limitações severas.
O investimento na dependência não deve ser entendido como um mero custo, mas como uma política pública com retorno social, económico e fiscal. O relatório estima que, em 2023, cada euro destinado a prestações de dependência gerou cerca de 1,6 euros de impacto no PIB. Além disso, quase metade da despesa inicial retornou às administrações públicas através de impostos e contribuições sociais: por cada euro investido, recuperaram‑se aproximadamente 49 cêntimos, reduzindo de forma significativa o esforço fiscal líquido.
Para reduzir a brecha de cuidados, propõe‑se uma folha de rota baseada em investimento sustentado, coordenação entre administrações, padrões comuns, reforço da atenção domiciliária e comunitária, profissionalização do setor e um modelo centrado na pessoa. De olhos postos em 2030, estima‑se que reforçar o SAAD exigiria aumentar o investimento em cerca de 0,6 pontos do PIB, com um efeito potencial de cerca de 430.000 novos empregos e um aumento das receitas públicas equivalente a 0,30 pontos do PIB.
O SAAD: avanços relevantes, mas consolidação incompleta
O estudo reconhece que o SAAD experimentou avanços significativos nos últimos anos. No final de 2025, as administrações autonómicas tinham reconhecido 1.726.288 pessoas em situação de dependência.
Destas, 1.610.266 recebiam já 2.274.461 prestações, de serviço ou económicas.
O relatório destaca igualmente que o denominado “limbo da dependência”, pessoas com direito reconhecido que ainda não recebem prestação efetiva, se reduziu em mais de 70% desde 2015, passando de mais de 384.000 pessoas para algo mais de 107.000 no final de 2025.
Apesar destes avanços, o estudo alerta que o sistema mantém limitações estruturais. O processo de acesso ao SAAD continua a demorar, em média, cerca de um ano, face ao prazo legal de seis meses. Esta demora, juntamente com a insuficiente intensidade de alguns serviços e a persistência de desigualdades territoriais, impede que o direito reconhecido se traduza sempre num direito efetivo.
O relatório estima que 72,4% das pessoas maiores de 65 anos com alguma limitação na sua vida diária não recebem atenção efetiva do SAAD. No caso das pessoas maiores com limitações severas, a brecha de cuidados situa‑se em 63,1%. Além disso, entre aqueles que recebem cuidados do sistema, 28% considera que os apoios recebidos são insuficientes para responder às suas necessidades.
Perante este diagnóstico, Nacho Álvarez, codiretor do estudo, assinalou que “Espanha construiu o seu Estado do bem‑estar sobre três pilares (saúde, educação e pensões), mas o quarto pilar, os cuidados de longa duração, não avançou ao mesmo ritmo. Renovar o Estado do bem‑estar passa por tornar efetivo o Direito ao Cuidado como um direito exigível, na realidade das prestações e dos serviços”. Por sua parte, Jorge Uxó, também codiretor do relatório, acrescentou que “o cuidado informal equivale a cerca de 3,2 milhões de empregos a tempo completo e, nos últimos 20 anos, as horas dedicadas multiplicaram‑se por 2,5. Colocá‑lo em valor significa reconhecer um volume próximo de 4% do PIB. Parte importante do estudo é pôr em evidência a importância económica de investir em cuidados, não o olhar apenas como despesa ou custo, mas como um projeto de país”.
Renovar o Estado do bem‑estar a partir dos cuidados
O estudo coloca que os cuidados de longa duração devem situar‑se ao mesmo nível que a saúde, a educação ou as pensões, como parte de uma renovação necessária do Estado do bem‑estar. A criação do SAAD supôs um avanço histórico ao reconhecer um direito subjetivo em situações de dependência, mas o relatório sustenta que este quarto pilar permanece ainda subdesenvolvido.

Desde a perspetiva do Direito ao Cuidado, o relatório defende que nenhuma pessoa deveria ver‑se privada dos cuidados necessários, nem nenhuma deveria ver‑se obrigada a cuidar em condições injustas. Isto exige reforçar o financiamento, melhorar a governação, reduzir os tempos de acesso, profissionalizar o setor, ampliar os serviços domiciliários e comunitários e avançar para um modelo de atenção centrado na pessoa.
O documento também adverte que o sistema espanhol continua a assentar em grande medida em cuidados informais, realizados principalmente nos lares e assumidos maioritariamente por mulheres. Segundo o estudo, estes cuidados informais têm uma magnitude económica equivalente a 3,6%–4,7% do PIB, embora permaneçam em grande parte invisibilizados nas estatísticas oficiais.
Desigualdades territoriais e necessidade de padrões comuns
O relatório alerta para fortes desigualdades territoriais no funcionamento do SAAD, com diferenças relevantes na cobertura, nos tempos de tramitação, na intensidade dos serviços, nos copagamentos e na despesa pública por pessoa beneficiária. Estas brechas condicionam o acesso efetivo ao Direito ao Cuidado em função do lugar de residência.
Para reduzir essas diferenças, o estudo recomenda reforçar a coordenação entre administrações, estabelecer padrões comuns e avançar para uma “descentralização governada”: um modelo capaz de respeitar a gestão autonómica, mas garantindo ao mesmo tempo níveis comparáveis de acesso, qualidade e suficiência em todo o território.
O relatório sublinha, além disso, que melhorar o sistema não consiste unicamente em aumentar horas ou quantias, mas em transformar o modelo. A atenção deve orientar‑se para serviços profissionais, apoios domiciliários e comunitários, assistência pessoal, acessibilidade na habitação, produtos de apoio, alternativas residenciais mais personalizadas e mecanismos que permitam adaptar os cuidados ao projeto de vida de cada pessoa.
Investir em cuidados gera bem‑estar e atividade económica
Desde a perspetiva da Economia dos Cuidados, o estudo analisa o impacto económico do investimento público na dependência e conclui que o debate não deve centrar‑se apenas em quanto custa o sistema, mas também na capacidade que tem para gerar bem‑estar, atividade, emprego e receitas públicas.
Em concreto, o relatório estima que, em 2023, uma despesa inicial de 10.623 milhões de euros em prestações de dependência gerou um impacto total de 17.260 milhões de euros no PIB, o que implica um multiplicador económico próximo de 1,6. Além disso, uma parte substancial desse investimento retorna às administrações públicas através de impostos e contribuições sociais, reduzindo de forma significativa o esforço fiscal líquido.
O estudo também situa a economia dos cuidados como um setor laboral de grande relevância, com cerca de 1,3 milhões de empregos em Espanha. No entanto, adverte que continua a ser um setor fortemente feminizado e marcado por maiores taxas de temporalidade, parcialidade e salários inferiores à média. A qualidade dos cuidados, assinala o relatório, depende diretamente da qualidade do emprego de quem cuida.
Uma folha de rota até 2030
De olhos postos em 2030, o estudo sustenta que manter um investimento semelhante ao atual na dependência, em termos de PIB, seria insuficiente para responder à mudança demográfica e poderia ampliar a brecha de cuidados. Para cobrir o crescimento previsto das necessidades e avançar para uma cobertura universal, o relatório estima necessário aumentar o investimento público no SAAD em cerca de 0,6 pontos do PIB.
Segundo as estimativas do estudo, esse aumento teria também um efeito económico relevante: poderia contribuir para a criação de 430.000 novos empregos e gerar um incremento das receitas públicas equivalente a 0,30 pontos do PIB.
As recomendações do relatório articulam‑se em torno de cinco grandes eixos: reconhecer juridicamente o Direito ao Cuidado; estabelecer objetivos de redução da brecha de cuidados; aumentar de forma sustentada o financiamento público; melhorar a governação e a equidade territorial do SAAD; e transformar o modelo para uma atenção mais profissionalizada, domiciliária, comunitária e centrada na pessoa.
Um estudo com participação institucional e internacional
O ato reuniu representantes institucionais espanhóis e portugueses, especialistas internacionais e vozes do âmbito social, num programa que abordou os desafios dos cuidados e a sua evolução no contexto europeu.
O ato foi aberto por Juan Martín, diretor do CENIE, que advertiu que “quando uma sociedade não financia, ordena e reconhece o cuidado, não elimina o custo: simplesmente o desloca, uma fatura que hoje recai especialmente sobre as famílias, as mulheres, as pessoas em situação de dependência e quem cuida em condições de precariedade”. Após Juan Martín, tomou a palavra M.ª del Carmen Hernández Martín, subdiretora‑geral de Cooperação Territorial Europeia do Ministério das Finanças, que recordou que “os desafios têm de ser trabalhados a partir da cooperação territorial, porque não é um problema apenas de Espanha, mas transcende fronteiras, e este projeto impulsiona a cooperação entre dois territórios e coloca as pessoas no centro para avançar para sociedades mais inclusivas, sustentáveis e humanas”.
Também contou com a destacada participação de Jacek Barszczewski, investigador de políticas de saúde da OCDE, que na sua intervenção sublinhou que “não se trata de avaliar o sistema espanhol, mas de situar os seus desafios num contexto internacional. Quase uma em cada quatro pessoas idosas na OCDE necessita de cuidados de longa duração e a pergunta é como responder a uma procura elevada e crescente com sistemas mais acessíveis, sustentáveis e equilibrados.” Durante o diálogo “O desafio dos cuidados”, Rosa Martínez, secretária de Estado dos Direitos Sociais, defendeu que “o passo seguinte é colocar o foco em melhorar a atenção domiciliária e é preciso atuar em quatro níveis: primeiro, com uma mudança de escala com mais intensidade, mais profissionais e mais flexibilidade para se adaptar a necessidades complexas. Segundo, uma mudança de enfoque evoluindo para um modelo centrado na pessoa; terceiro, a atenção domiciliária deve fazer parte de um ecossistema de cuidados integrado na comunidade e com o sistema de saúde. E quarto, com as condições laborais, já que sem profissionais suficientes e com boas condições, estas mudanças não serão possíveis”.
Por sua parte, Luís Pais Antunes, presidente do Conselho Económico e Social de Portugal, afirmou: “estamos a trabalhar muito próximos de Espanha; o Conselho de Portugal tem uma relação muito estreita com o Conselho Económico e Social espanhol. Com o CENIE e a Universidade de Salamanca vamos continuar, e creio que há espaço para aumentar a cooperação, ainda que haja diferenças: não temos de fazer o mesmo da mesma maneira”. Enquanto isso, a escritora, socióloga e economista Brenda Navarro destacou que “um trabalho de cuidado deve ter um preço. Se não entendermos que o trabalho de cuidados tem um preço real, estamos a fazer as perguntas erradas sobre que modelo queremos. Para falar de cuidados de forma honesta, temos de perguntar qual é o projeto de país, já que a economia formal também depende da economia informal que as mulheres sustentam dentro das casas, e isso tem de entrar no debate económico e nas políticas públicas”.
Na sessão de encerramento, o ministro dos Direitos Sociais, Consumo e Agenda 2030, Pablo Bustinduy, destacou que “temos a oportunidade de dar passos decididos para construir um sistema público que garanta o direito ao cuidado. A melhor maneira de reforçar a democracia é através da expansão do sistema de proteção social e da construção de um sistema público universal de cuidados que responda, na prática, às necessidades e aos desejos da cidadania”.
O estudo foi dirigido por Nacho Álvarez, Professor Titular de Economia Aplicada na Universidade Autónoma de Madrid e codiretor do estudo, e por Jorge Uxó, Professor Titular de Economia Aplicada na Universidade Complutense de Madrid e codiretor do estudo. Na equipa de investigação participaram também Fernando Bermejo, Raúl del Pozo e Pablo Moya, da Universidade de Castilla‑La Mancha; Ricardo Molero e Laura Pérez Ortiz, da Universidade Autónoma de Madrid; Paloma Villanueva, da Universidade Complutense de Madrid; e Elia Gómez, do SIIS Centro de Documentação e Estudos, Fundação Eguía Careaga.
Sobre o CENIE
O Centro Internacional sobre o Envelhecimento (CENIE), promovido pela Fundação Geral da Universidade de Salamanca, define‑se como um hub de conhecimento em torno da longevidade. Coopera estreitamente com os Conselhos Económicos e Sociais de Espanha e Portugal e com o Instituto Politécnico de Bragança, configurando um espaço único de colaboração transfronteiriça.
O CENIE nasce como resposta a uma realidade sociodemográfica que coloca novos desafios e oportunidades. Para os enfrentar, impulsiona programas de investigação, fomenta a inovação social e desenvolve ações que contribuem para mudar a perceção da relação entre idade, economia e sociedade. A sua atividade inclui projetos científicos, formativos e culturais com um objetivo comum: situar a longevidade no centro da conversa pública.
O aumento constante da esperança de vida é um dos maiores feitos da nossa época: um marco transformador que abre tanto oportunidades como desafios. Avanços científicos, melhorias sanitárias e mudanças nos hábitos de vida permitiram prolongar a existência como nunca antes na história. Agora, o desafio é que essa extensão do tempo se traduza em vidas mais ativas, saudáveis, participativas e prósperas.
Com essa finalidade trabalha o CENIE: transformar a revolução demográfica que vivemos numa verdadeira oportunidade de bem‑estar partilhado, investigando, difundindo e gerando consensos que tornem possível que a longevidade seja vivida com qualidade e sentido.