11/09/2026

→ A cronicidade silenciada: cuidar como direito numa Espanha longeva

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Espanha orgulha‑se, com razão estatística, de ser uma das sociedades mais longevas do planeta. No entanto, este sucesso demográfico convive com uma realidade estrutural que raramente ocupa o centro do debate público: a prevalência da doença crónica. Segundo o Inquérito de Saúde de Espanha (ESdE 2023), 57,7 % da população com 15 ou mais anos declara viver com alguma doença ou problema de saúde crónico. Esta condição, longe de ser marginal, surge já em idades jovens — quase 30 % entre os 15 e os 24 anos — e intensifica‑se com o passar do tempo: 80,07 % entre os 65 e 74 anos, 88,60 % entre os 75 e 84, e 93,57 % a partir dos 85. Convém recordar que nem toda doença crónica implica dependência ou necessidade de cuidados de longa duração; porém, quando limita a autonomia, evidencia a profunda descontinuidade entre a atenção sanitária e os apoios sociais.

Estes dados confirmam que a cronicidade é hoje a condição maioritária da sociedade espanhola. Contudo, as instituições, a economia e a arquitetura do cuidado continuam a operar sob uma ficção: a ideia de que a fragilidade é uma exceção e de que a autonomia é um mérito puramente individual.

O Estado não desatende a cronicidade por mera negligência, mas porque o desenho vigente externaliza para os lares uma parte substancial dos custos: assume que a absorção privada desse desgaste é mais barata do que construir uma infraestrutura pública robusta, transferindo assim para os corpos vulneráveis o custo da sua própria inação.

Mas este cálculo macroeconómico encontra ainda a sua coartada perfeita no plano cultural, dando lugar a um duplo isolamento: enquanto a contabilidade pública se desresponsabiliza dos custos, a cultura dominante condena o indivíduo a resolver sozinho a sua vulnerabilidade. Assim, um mandato contra a interdependência ergue‑se como complemento ideal dessa desatenção institucional e adota a forma do mito da autossuficiência, uma ficção que apresenta a autonomia absoluta como requisito de valor e transforma a fragilidade num assunto privado.

É importante recordar que a doença crónica e o cuidado não formam uma simples cadeia de causa e efeito, mas constituem um mesmo fenómeno social visto de dois ângulos: o do corpo que se sustém, como pode, ao longo do tempo, e o da rede de apoios que torna possível essa continuidade. Uma doença prolongada nunca se desenrola isoladamente; gera de imediato uma organização concreta de tempos, tarefas e responsabilidades que reconfigura a vida doméstica e comunitária.

Este trabalho invisível é a verdadeira coluna vertebral do sistema de cuidados em Espanha e equivale, segundo o estudo O Direito ao Cuidado e a Economia dos Cuidados em Espanha (CENIE, 2026), entre 3,6 % e 4,7 % do PIB. Estes valores correspondem aos dois métodos de avaliação utilizados no relatório — custo de substituição e custo de oportunidade — que permitem estimar o valor do cuidado informal a partir de cenários complementares. Em termos económicos, este intervalo representa entre 57.348 e 74.538 milhões de euros anuais em trabalho não remunerado que o Estado deixa de financiar. Em outras palavras: as famílias — sobretudo as mulheres — fornecem todos os anos uma infraestrutura doméstica que substitui serviços públicos insuficientes e gera uma poupança multimilionária para o Estado Social.

Face à miopia institucional que continua a interpretar a atenção à cronicidade como um gasto assistencial passivo, as avaliações económicas do SAAD, do CENIE, as análises do Ministério da Saúde e os estudos comparados sobre economia do cuidado convergem numa conclusão: reforçar os apoios continuados reduz custos sanitários evitáveis, dinamiza o emprego e melhora a sustentabilidade do sistema. Cada euro destinado à dependência gera um efeito multiplicador estimado em 1,6 euros sobre o PIB e contribui para criar emprego estável no setor sociossanitário. Longe de ser uma carga, sustentar a vida de forma profissional e equitativa alivia a sobrecarga das cuidadoras, previne internamentos evitáveis e facilita a participação laboral em condições justas.

Se os indicadores macroeconómicos e a evidência sobre a economia dos cuidados são tão claros, porque é que as estruturas institucionais quase não se movem? Aqui, a sociologia institucional e a sociologia do cuidado oferecem uma chave interpretativa, ajudando a identificar as dinâmicas culturais e organizativas que explicam porque é que a evidência não se converte em ação e porque é que a cronicidade permanece fora do centro da agenda pública. Em Espanha, operam os seguintes mecanismos que sustentam esta resistência:

  1. O colchão da absorção extrativa de custos. O Estado abstém‑se de investir porque opera sob uma lógica de extração económica: a economia familiar assume de forma forçada a carga dos cuidados, funcionando como um amortecedor gratuito que impede qualquer colapso institucional. O setor público subsiste, assim, à custa de transferir o desgaste físico e material diretamente para os lares
  2. A cronicidade tem uma representação fragmentada e de incidência desigual. As doenças agudas mobilizam urgência, campanhas mediáticas e associações fortes; a cronicidade, pelo contrário, é silenciosa, quotidiana e dispersa. Existem associações e organizações de pacientes, mas a sua ação está dividida por patologias específicas e a sua capacidade de incidência política é heterogénea e limitada. Esta fragmentação impede gerar pressão pública continuada e, sem pressão continuada, não há reforma. A sociologia denomina esta situação défice de representação estrutural: não é apenas que “não se fale do tema”, é que falta um lobby unificado, campanhas estáveis, presença mediática robusta e capacidade de pressão institucional capaz de transformar a agenda pública.
  3. O familismo institucionalizado como matriz cultural persistente. Aqui o eixo é ideológico e normativo: o modelo de bem‑estar espanhol carrega uma matriz cultural profundamente conservadora que dogmatiza a ideia de que a assistência é um assunto doméstico (“o cuidado é um dever da família”). Este ponto explica porque os cidadãos o toleram e o interiorizam como mandato moral incuestionável, percebendo qualquer ajuda pública como ingerência ou custo supérfluo, em vez de como infraestrutura coletiva indispensável.
  4. A política opera em ciclos curtos; a cronicidade, em ciclos longos. Os retornos de investir em cuidados — menos hospitalizações, mais emprego, mais produtividade — não se observam num ano, mas em cinco ou dez. Os governos, porém, trabalham com calendários eleitorais breves. A sociologia institucional denomina isto desajuste temporal entre problema e decisão. Nenhum executivo assume o custo político e orçamental imediato de financiar uma reforma profunda cujos benefícios tangíveis amadurecerão, inevitavelmente, sob o mandato de outra administração rival.

E como dimensão transversal que condiciona todos os mecanismos anteriores, surge um fator crítico: a privatização do desamparo e a desigualdade de classe no suporte.  

Quando o Estado e as redes comunitárias falham, o mercado irrompe com força, oferecendo soluções fragmentadas e desiguais — desde residências privadas até à contratação precária de cuidadoras internas — que transformam a cronicidade num eixo de desigualdade profunda. As famílias com recursos podem externalizar o desgaste; as classes trabalhadoras ficam aprisionadas no desgaste físico e emocional do cuidado direto.

A pergunta de fundo é institucional: que modelo de convivência pode sustentar uma sociedade que vive tanto? Um que delega o cuidado nos lares e confia que a vulnerabilidade permaneça invisível, ou um que reconhece que a sua longevidade depende da capacidade de sustentar vidas reais, com limites e dependências.

O que sabemos é que o bem‑estar não se mede pelos anos acumulados, mas pela solidez dos apoios que permitem habitá‑los. E a força de um país reconhece‑se na sua capacidade de integrar aquilo que não cabe no ideal de autossuficiência, incorporando a fragilidade como parte legítima da vida social.

Referências:

  • Bury, Michael (1982). La enfermedad crónica como alteración biográfica. Salud Social y Enfermedad, 4(2), 167–182.
  • Centro Internacional de Envejecimiento (CENIE) (2026). (Coord.). El Derecho al Cuidado y la Economía de los Cuidados en España. CENIE, Universidad de Salamanca, Instituto Politécnico de Bragança y Universidade de Vigo.
  • Ministerio de Sanidad (2024). Encuesta de Salud de España (ESdE) 2023. Madrid: Gobierno de España.
  • Tilly, Charles & Wood, Lesley (2009/2010). Los movimientos sociales, 1768–2008. Desde sus orígenes a Facebook. Barcelona: Editorial Crítica.

     

Autoría: Carmen Núñez Cuenca 
 

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