O sonho também precisa de condições
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São 3h17. Uma pessoa acorda pela terceira vez. Dói-lhe a anca, ouve o elevador por detrás de uma parede fina e, antes de tentar voltar a adormecer, verifica se o seu companheiro precisa de ajuda para se levantar.
De manhã, diz que «nestas idades é normal dormir mal». A frase reúne, contudo, situações diferentes: um sono que pode tornar-se mais leve com os anos e condições como a dor, o ruído, os horários ou os cuidados prestados a outras pessoas, que impedem um verdadeiro descanso.
O sono muda ao longo da vida, mas uma noite persistentemente má não deve ser aceite como o preço da idade. Compreender o que mantém cada pessoa acordada permite rever o estado de saúde, a medicação, o ambiente e os cuidados envolvidos.
Envelhecer muda o sono
Com o avançar dos anos, é frequente deitar-se e acordar-se mais cedo, passar menos tempo em sono profundo e despertar mais vezes durante a noite. No entanto, o descanso continua a ser uma necessidade.
A necessidade habitual situa-se entre sete e nove horas de sono, tal como acontece com os restantes adultos. Este valor é uma orientação, mas não determina por si só uma boa noite de descanso. Também contam a continuidade do sono, a sensação ao acordar e a capacidade de se manter alerta ao longo do dia.
Uma noite difícil não constitui, por si só, uma perturbação. A idade também não explica semanas de cansaço, sonolência ou dificuldade de concentração. Importa tanto o que acontece durante a noite como as consequências que isso tem durante o dia.
O frequente nem sempre é normal
A insónia pode manifestar-se como dificuldade em adormecer, despertares repetidos ou um descanso que não é reparador, mesmo quando existem tempo e condições adequadas para dormir. Torna-se relevante quando se repete e prejudica a vida diurna.
A dor, a ansiedade, o humor deprimido, a tosse ou a necessidade de urinar podem fragmentar o sono. Concentrar-se apenas em conseguir dormir pode deixar por tratar a causa dos despertares.
É aconselhável procurar apoio profissional quando a dificuldade persiste ou afeta a segurança, a memória, o estado emocional ou as atividades quotidianas. Um diário de duas semanas com horários, despertares, sestas, consumo de cafeína, álcool e sensações durante o dia pode ajudar a identificar padrões e a explicá-los numa consulta.
O corpo também passa a noite
O ressonar intenso acompanhado de pausas respiratórias, engasgamentos ou sonolência diurna pode ser sinal de apneia do sono. Quem dorme nem sempre se apercebe destas interrupções respiratórias.
Uma necessidade irresistível de mexer as pernas durante o repouso, que melhora ao caminhar, pode apontar para outra perturbação. Nem toda a inquietação noturna tem a mesma explicação nem exige a mesma resposta.
Perguntar pelo sono deveria fazer parte dos cuidados de saúde. Dormir mal pode ser um sintoma, uma consequência e um problema que agrava o funcionamento durante o dia.
Rever a medicação também conta
Alguns medicamentos dificultam o sono; outros provocam sonolência durante o dia e alteram o ritmo noturno. A dose, a hora da toma, as combinações e os produtos adquiridos sem receita também podem influenciar.
A revisão deve incluir tudo o que é tomado, não apenas os medicamentos para dormir. Além disso, interromper um medicamento ou alterar o horário por iniciativa própria também pode causar problemas; qualquer decisão deve ser discutida com um profissional de saúde.
Os hipnóticos podem ser úteis em situações específicas, mas não substituem uma avaliação clínica. Alguns podem provocar tonturas, confusão ou sonolência no dia seguinte.
A habitação também influencia o descanso
O sono acontece num lugar concreto. O trânsito, uma televisão do outro lado da parede, a luz exterior, o calor, o frio ou a sobrelotação da habitação podem manter o organismo em estado de alerta.
Fechar uma persiana, ajustar a temperatura ou reduzir uma fonte de luz pode ajudar quando isso está ao alcance da pessoa. Contudo, nem todos podem isolar a sua casa, mudar de quarto ou suportar os custos da climatização.
O descanso também depende da habitação, do urbanismo e do controlo do ruído. Recomendar silêncio sem questionar quem tem realmente condições para o conseguir transforma uma condição material numa responsabilidade individual.
Os horários e os cuidados também acordam
A regularidade e a exposição à luz natural ajudam a organizar o sono. No entanto, os turnos de trabalho, os horários irregulares ou a necessidade de cuidar de outra pessoa podem adiá-lo ou interrompê-lo.
Quem ajuda alguém a levantar-se, administra medicação ou responde a episódios de desorientação permanece em estado de alerta mesmo quando já está deitado.
Proteger quem cuida exige apoio domiciliário, períodos de descanso, partilha de tarefas e serviços capazes de responder também durante a noite.
Olhar para o conjunto permite tratar melhor
Melhorar o sono pode exigir tratar a dor, rever a medicação, modificar horários, reduzir o ruído ou reorganizar os cuidados. Nenhuma medida funciona da mesma forma para todas as pessoas.
Para a insónia persistente, a terapia cognitivo-comportamental para a insónia é frequentemente recomendada como primeira opção. Este tratamento trabalha os hábitos, a relação entre a cama e o sono e a preocupação com o facto de não conseguir dormir; não se limita a uma lista genérica de conselhos.
Voltemos às 3h17. Talvez aquela pessoa não precisasse de se esforçar mais, mas sim de identificar as interrupções que se foram acumulando. Em sociedades longevas, cuidar do descanso exige olhar para a noite como um todo: o corpo, a casa, os horários e as responsabilidades.
O que teria de mudar no nosso ambiente ou nas nossas responsabilidades para que descansar não dependesse apenas de nos desenrascarmos todas as noites?
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