O Estado do bem-estar perante a longevidade: reforma ou reinvenção?
O Estado do bem-estar nasceu para uma sociedade que já não existe.
Foi concebido num momento histórico em que as vidas eram mais curtas, as trajetórias previsíveis e as idades estavam claramente compartimentadas: estudar, trabalhar, reformar-se. Hoje, porém, vivemos mais anos, mudamos mais vezes de papel e atravessamos etapas de vida que antes nem sequer tinham nome. A pergunta já não é se o Estado do bem-estar deve adaptar-se, mas se basta reformá-lo ou se precisamos de o reinventar desde os seus alicerces.
A longevidade não é um problema orçamental. É uma mudança civilizacional que põe em causa a própria arquitetura das nossas instituições.
Um modelo pensado para vidas curtas
Os pilares clássicos do Estado do bem-estar —educação, saúde, pensões, proteção social— foram desenhados para sustentar um ciclo de vida relativamente breve e linear. Funcionaram durante décadas porque respondiam a uma estrutura demográfica estável, a carreiras profissionais contínuas e a uma esperança de vida limitada.
Esse equilíbrio rompeu-se. As sociedades longevas multiplicam as transições: pessoas que regressam à formação aos 50, que trabalham para além dos 65, que cuidam e são cuidadas em diferentes momentos da vida, que atravessam longos períodos de autonomia e outros de fragilidade.
O problema não é que o sistema falhe. O problema é que foi desenhado para outro tempo, outra duração da vida e outra conceção do percurso vital.
Reformar nem sempre é suficiente
Perante este desajuste, a resposta dominante tem sido falar de reformas: adiar a idade da reforma, ajustar pensões, conter a despesa em saúde, promover a poupança individual. São medidas necessárias em muitos casos, mas não abordam o núcleo do problema.
Reformar implica corrigir um modelo existente. Reinventar implica mudar a lógica sobre a qual esse modelo foi construído.
Em sociedades longevas, o bem-estar já não pode organizar-se como uma soma de compartimentos estanques nem como uma sequência rígida de direitos associados a uma única etapa da vida. A longevidade extravasa esse esquema e deixa a descoberto uma pergunta incómoda: o que significa proteger socialmente pessoas que vivem 20 ou 30 anos mais do que as gerações para as quais o sistema foi desenhado?
Novos pactos para vidas longas
Reinventar o Estado do bem-estar exige pensar em novos pactos sociais, e não apenas em novas normas. Pactos que assumam que a vida é mais longa, mais diversa e mais incerta.
Isto implica, entre outras coisas:
- Uma educação verdadeiramente contínua, acessível ao longo de toda a vida e não concentrada apenas nos primeiros anos;
- Sistemas de proteção que acompanhem transições vitais (laborais, familiares, de saúde), e não apenas situações de emergência;
- Políticas de emprego que integrem a idade como diversidade e experiência, e não como descarte;
- Sistemas de cuidados que não recaiam exclusivamente sobre as famílias nem, de forma estrutural, sobre as mulheres.
O bem-estar do século XXI não pode basear-se unicamente em transferências monetárias. Deve assentar também na capacidade de agência, na autonomia real e na participação social sustentada ao longo do tempo.
Do bem-estar reparador ao bem-estar preventivo
Outro limite profundo do modelo atual é o seu carácter reativo. O Estado do bem-estar funcionou, em grande medida, como um sistema reparador: atua quando o problema já ocorreu.
As sociedades longevas exigem uma viragem decidida em direção à prevenção. Prevenir fragilidade, solidão, exclusão ou dependência não é apenas mais eficaz, mas também mais justo. E, a médio prazo, mais sustentável.
Isto implica investir em saúde comunitária, em ambientes habitáveis, em vínculos sociais, em cultura e em participação. O bem-estar não se decide apenas em hospitais e gabinetes administrativos, mas na vida quotidiana, nos territórios e nas relações.
A corresponsabilidade como princípio estrutural
Reinventar o Estado do bem-estar não significa que o Estado faça tudo, nem que as pessoas devam fazê-lo sozinhas. Significa redefinir a corresponsabilidade entre instituições públicas, mercado, comunidade e cidadania.
Em sociedades longevas, ninguém consegue sustentar o bem-estar em solitário. O cuidado, a aprendizagem, a participação e a contribuição social devem distribuir-se de forma mais equilibrada ao longo do tempo vital.
Este enfoque não enfraquece o Estado do bem-estar. Pelo contrário: fortalece-o, tornando-o mais realista, mais adaptativo e mais coerente com a duração real das vidas.
A Europa perante o seu próprio espelho
A Europa é, ao mesmo tempo, laboratório e advertência. Construiu sistemas de bem-estar robustos, mas enfrenta hoje tensões evidentes: envelhecimento acelerado, escassez de cuidadores, pressão fiscal, desajustes intergeracionais e uma crescente sensação de fadiga institucional.
O debate não deveria centrar-se apenas em quanto custa a longevidade, mas em que tipo de bem-estar queremos sustentar: um que se limite a compensar perdas ou um que acompanhe trajetórias longas, mutáveis e não lineares.
A longevidade não deve ser vivida como um peso para o sistema, mas como uma oportunidade para repensar o contrato social numa lógica de tempo longo.
Reinventar sem romper
Falar de reinvenção não é falar de rutura. É falar de evolução consciente. Os valores fundadores do Estado do bem-estar —solidariedade, equidade, proteção face à vulnerabilidade— continuam plenamente válidos.
O que muda é a forma de os concretizar num mundo em que viver mais tempo já não é exceção, mas norma.
Reinventar o bem-estar é aceitar que as vidas longas exigem instituições mais flexíveis, mais transversais e mais atentas à diversidade das trajetórias vitais.
Estamos dispostos a pensar o bem-estar para além das soluções herdadas do século passado?