Vi a longevidade nua e levei algumas surpresas: aqui conto-tas
Em 2002, em Madrid, a OMS oficializou um termo que teve consequências maravilhosas nas vidas de milhões de pessoas: o envelhecimento ativo. Com ele, recorda-nos a importância de cuidarmos de nós próprios e dá-nos orientações centradas essencialmente na saúde e no bem-estar. Mas envelhecer bem exige muito mais do que cuidar do corpo e, para compreender melhor como consegui-lo, decidi despir a longevidade e mostrar-te a sua essência. A seguir, conto-te o que descobri ao fazê-lo:
1. A biologia importa menos do que pensas
Embora ainda não possamos ter a certeza da percentagem exata que a genética tem no nosso envelhecimento, quase todas as investigações a situam entre 20% e 50%. O resto dos fatores que influenciam são consequência direta dos hábitos de vida e do ambiente. Por isso, é importante desmontar a desculpa favorita de muitos: “é que na minha família todos morrem jovens”, porque o estilo de vida é um determinante mais forte da saúde do que a herança. A genética carrega a pistola, mas os hábitos apertam o gatilho.
2. É preciso ter amigos e dar-lhes e receber os seus abraços
O estudo mais longo alguma vez realizado sobre a felicidade humana — o de Harvard, que há mais de oitenta anos acompanha as mesmas pessoas — chegou a uma conclusão contundente: o preditor mais poderoso da longevidade e do bem-estar na velhice não é o colesterol, nem a força dos teus músculos, é a qualidade das relações pessoais. Manter vínculos ativos reduz o stress, reforça a saúde cognitiva, aumenta a resiliência e, sobretudo, dá sentido a levantar-se de manhã.
3. A solidão mata mais do que o tabaco
A solidão crónica encurta a esperança de vida tanto como fumar 15 cigarros por dia, e está ligada a cerca de um milhão de mortes anuais. Uma meta-análise que incluiu aproximadamente 2,2 milhões de pessoas concluiu que aquelas que reportavam isolamento social tinham um risco 30% maior de morte prematura por qualquer causa, em comparação com pessoas com redes sociais mais ativas. Em Espanha, mais de dois milhões de pessoas com mais de 65 anos vivem sozinhas, número que se espera que chegue aos 6 milhões na próxima década. E, no entanto, continuamos a tratar a solidão como um problema emocional, e não como um problema de saúde pública.
4. A economia importa tanto como a medicina
A pobreza mata mais do que o álcool, a obesidade e a hipertensão. O stress financeiro é uma doença que mata. Os adultos com baixos rendimentos morrem, em média, nove anos antes do que os seus pares mais ricos. A velhice amplifica tudo: a saúde, se tens recursos, e a doença, se não os tens. Falar de envelhecimento sem falar de economia é falar de metade do problema.
5. O lazer não é um luxo, é um fator de sobrevivência
E não falamos apenas de fazer desporto, que de facto é muitíssimo bom, mas de ter atividades com propósito (voluntariado, arte, música, jardinagem, qualquer coisa que gere em ti um estado de “flow”). O tédio crónico na velhice não é gratuito, tem custo biológico.
6. A autonomia legal é tão vital como a física
Uma boa longevidade requer que decidamos como queremos viver se um dia não pudermos decidir. O nosso ordenamento jurídico oferece mecanismos para proteger a tua autonomia perante uma incapacidade superveniente: a procuração preventiva, a autotutela e o testamento vital. Quase ninguém os usa. Em Espanha, apenas 280.000 pessoas registaram oficialmente o seu testamento vital ou vontades antecipadas. 60% das pessoas mais velhas desconhecem que esta ferramenta existe e, no entanto, quando lhes é explicada, 70% dizem que a utilizariam.
7. A curiosidade e a vontade de aprender são a medicina para ter uma boa saúde cognitiva
A estimulação intelectual sustentada constrói aquilo a que os neurocientistas chamam reserva cognitiva: uma espécie de almofada cerebral que atrasa o aparecimento de sintomas degenerativos. Aprender algo novo depois dos 60 anos não é uma excentricidade, é prevenção.
8. O ambiente importa mais do que imaginamos
A acessibilidade urbana, a qualidade do ar, a possibilidade de ir a pé ao supermercado, bons centros médicos… são pilares básicos da longevidade. O ambiente em que envelhecemos não é apenas um cenário. Uma população desenhada para favorecer a longevidade não é apenas condescendente com os seus mais velhos, é sobretudo inteligente e está a apostar num futuro melhor.
9. A forma como te imaginas a envelhecer determina como envelhecerás
As pessoas com uma imagem positiva do envelhecimento vivem mais e melhor do que aquelas que o associam apenas ao declínio e à perda. Não é pensamento positivo de autoajuda. É que a perceção ativa ou inibe comportamentos de autocuidado, de ligação social, de procura de propósito. Se acreditas que envelhecer é apenas deterioração, tens azar, porque a tua profecia cumprir-se-á.
Aprende a despir a longevidade para desenhar o teu melhor futuro
Estas nove dimensões de que falámos têm algo em comum: todas se constroem antes de serem necessárias. A rede social não aparece sozinha aos 75 anos. A poupança não surge do nada aos 70. A autonomia legal não se ativa se não tiver sido formalizada. O propósito não se inventa na residência. Envelhecer bem é, em grande medida, um projeto. Não garantido, não linear, não isento de golpes de má sorte. Mas, no fim de contas, um dos teus principais projetos. E os projetos, para alcançarem o sucesso, precisam de começar muito antes do último momento. É tua responsabilidade compreender de que depende a tua melhor longevidade.
Autoría: María Jesús González Espejo