Erik Klinenberg é um sociólogo norte‑americano conhecido sobretudo por uma obra recente, Palaces for the People. Não foi, no entanto, através desse livro que o conheci e, sendo uma obra muito boa, considero ainda melhor a sua primeira grande investigação: a tese de doutoramento. Publicada (que eu saiba, apenas em inglês) como Heat Wave: A Social Autopsy of Disaster in Chicago (2002), analisou a grande onda de calor que atingiu Chicago em julho de 1995 e que provocou cerca de 739 mortes numa única semana.
A pergunta que orientava a investigação não procurava explicar como ou por que razão o calor mata, mas sim por que motivo a mortalidade se distribuía de forma tão desigual pela cidade de Chicago. Em particular, algo que chamou a sua atenção foi o facto de a mortalidade não corresponder de forma inequívoca à habitual desigualdade em torno do eixo riqueza/pobreza: em bairros igualmente pobres e com características demográficas semelhantes, a mortalidade era muito diferente.
Klinenberg realizou aquilo a que chamou uma “autópsia social” do desastre: reconstruiu as condições sociais, urbanas e institucionais — através de trabalho de campo, entrevistas, visitas — que tinham contribuído para que o episódio de calor extremo se transformasse numa tragédia de tal magnitude. O achado central foi que muitas das vítimas eram pessoas idosas que morreram sozinhas em casa, mas a idade não era o fator explicativo. O ponto comum? Todas estavam desligadas de familiares, vizinhos, organizações comunitárias e serviços públicos. Não era uma questão de haver mais pessoas idosas num bairro do que noutro; era uma questão de solidão.
A investigação mostrou que a pobreza, isoladamente, não explicava as diferenças na mortalidade. Os bairros que tinham sofrido processos intensos de abandono — perda de comércio local, de população, de instituições e de vida na rua, aquilo que acontece em qualquer processo de gentrificação ou turistificação quando a fase do turismo termina — deixavam as pessoas idosas mais isoladas e dificultavam que alguém detetasse uma situação de risco. Pelo contrário, nos bairros (igualmente pobres, com composição sociodemográfica semelhante) onde continuava a existir tecido social — comércio de proximidade, associações, igrejas, espaços públicos onde permanecer e reconhecer‑se — as pessoas tinham mais oportunidades de sobreviver ao calor.
Esta é uma teoria que me interessa particularmente e que tenho procurado desenvolver em algumas das minhas últimas investigações: a infraestrutura social dos bairros pode funcionar como uma infraestrutura de proteção perante desastres. E isto está associado à configuração urbana: a forma como se faz cidade, a legislação sobre habitação (se as casas podem ou não ser turísticas e em que medida; se os rés‑do‑chão comerciais podem ou não ser convertidos em habitação) influencia questões aparentemente distantes, como a sobrevivência da população mais velha perante temperaturas extremas.
Tendemos a pensar noutras recomendações (importantes, claro): beber água, baixar estores, evitar sair nas horas de maior calor, manter a casa fresca. São conselhos necessários, mas precisamos de reconhecer que nem todas as pessoas os podem seguir.
Nem todas as casas conseguem manter‑se frescas. Nem todas as pessoas podem deixar de sair. Nem todos os lares conseguem suportar o custo energético de um ventilador, de um “pinguim” (em criança, as minhas vizinhas tinham um e parecia‑me o auge do fresquinho) ou de um ar condicionado (quando existe). As redes familiares, de vizinhança e comunitárias são fundamentais, porque permitem detetar situações de risco que poderiam passar despercebidas — uma pessoa pode não reconhecer os primeiros sinais de desidratação ou confusão associados a um golpe de calor, ou pode não querer “incomodar”. O problema é que nem todas as pessoas dispõem de redes familiares próximas, ou estas podem não estar em condições de ajudar (o que acontece quando quem precisa de cuidados é quem costuma cuidar?). O resultado pode ser fatal.
Por isso, gostaria de refletir — em pleno calor sufocante, que me leva a insistir neste tema das ondas de calor e dos seus riscos — sobre a dimensão social da proteção. As ondas de calor não são apenas um problema de temperatura: são também uma expressão das desigualdades residenciais, urbanas e sociais. E, enquanto algumas são difíceis de resolver, outras não o são tanto. Melhorar a eficiência energética de um edifício beneficia os seus habitantes; adaptar climaticamente um bairro beneficia toda a população que o utiliza. Sendo ambas necessárias, creio que a segunda não está a receber a atenção que merece.
A presença de vegetação e sombra reduz a temperatura dos espaços públicos e permite deslocações quotidianas com menor exposição a esse calor que nos esmaga no verão. Bancos à sombra oferecem descanso. As fontes (que desapareceram de tantos bairros) facilitam a hidratação. O comércio e os equipamentos de proximidade reduzem trajetos — e podem ser refúgios pontuais. O transporte público acessível é crucial, sobretudo se reduz o tempo de deslocação ao sol. É certo que devemos evitar sair nas horas de maior calor, mas pensemos em quem tem de se deslocar obrigatoriamente nesses períodos porque, por exemplo, tem de prestar cuidados. Nem todos podem evitar as piores horas do dia: precisamos de infraestruturas capazes de proteger esses deslocamentos inevitáveis. Pensemos também em quem tem mobilidade reduzida, doenças crónicas ou maior fragilidade física. Ou em quem precisa de fugir de casas mal isoladas e sufocantes.
Também importa a existência de espaços públicos climatizados — os chamados “refúgios climáticos”. Bibliotecas, centros culturais, centros de dia, instalações desportivas, museus e outros equipamentos podem oferecer proteção nas horas mais quentes. Mas é preciso que existam. É curioso que os museus fechem precisamente nas tardes de agosto, quando poderiam ser excelentes refúgios climáticos. Já ouvi dizer que as farmácias são refúgios climáticos, mas nem todas estão preparadas para acolher quem delas precisa.
Devemos contar com os serviços de saúde e sociais, mas sabemos que nem sempre têm capacidade para chegar onde são necessários.
O que proponho é que o combate às ondas de calor seja coordenado, com instituições públicas que disponham de informação sobre a população mais vulnerável (por condições físicas e de saúde, económicas ou habitacionais), mas também com redes sociais e comunitárias fortalecidas, capazes de detetar necessidades. E, sem dúvida, para que estas redes possam existir e perdurar, precisamos de espaços públicos que as acolham, de configurações urbanas que permitam que as pessoas se relacionem, se conheçam, se apoiem. Precisamos de cidades e bairros mais preparados para o calor, com sombra, espaços verdes e azuis, fontes de água para beber e refrescar. Espaços que nos permitam escapar ao calor mesmo quando a nossa casa não o permite.