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DEMO·GRAFO: Território de Bem‑Estar, os dados que revelam a vida
Em 2025, o CENIE deu um passo decisivo rumo ao futuro com o DEMO·GRAFO, um projeto que redefine a forma como entendemos a demografia, a longevidade e o bem‑estar dos territórios.
Não se trata de mais um estudo sobre despovoamento ou envelhecimento. É uma infraestrutura científica e tecnológica, baseada em dados, que procura medir o invisível: a qualidade de vida, a vitalidade e a capacidade de resiliência das comunidades que muitos consideram “em declínio”, mas que, na realidade, guardam uma sabedoria e uma sustentabilidade que o século XXI começa a valorizar novamente.
O DEMO·GRAFO, impulsionado pela Universidade de Salamanca no âmbito do Plano de Recuperação, Transformação e Resiliência e coordenado pelo Centro Internacional sobre o Envelhecimento (CENIE), integra o Programa de Impulso aos Espaços de Dados Setoriais do Ministério da Transformação Digital e da Função Pública.
O seu objetivo é ambicioso e claro: criar o primeiro espaço de dados setorial sobre o desafio demográfico na Europa, um ambiente interoperável, ético e seguro onde a ciência, a inteligência artificial e a governação de dados se colocam ao serviço das sociedades longevas.
Uma nova perspetiva sobre a longevidade
Durante décadas, a demografia foi narrada em negativo: perda de população, encerramento de serviços, envelhecimento. O DEMO·GRAFO propõe outra abordagem.
Parte de uma premissa poderosa: a longevidade não é um problema, é um património. As pessoas mais velhas de hoje não representam um peso social, mas sim um recurso de conhecimento, vínculos e experiência. E os territórios com maior concentração de população envelhecida — como Ourense ou Zamora — não são os últimos bastiões de um modelo esgotado, mas os primeiros laboratórios naturais de uma sociedade mais longeva, solidária e sustentável.
O CENIE sempre defendeu que o verdadeiro desafio do século XXI não é o envelhecimento, mas a adaptação inteligente à longevidade. O DEMO·GRAFO materializa esta ideia ao construir uma base científica e tecnológica capaz de mostrar como os dados, bem geridos, podem transformar a perceção dos territórios envelhecidos e convertê‑los em Territórios de Bem‑Estar.
O caso de uso: Territórios de Bem‑Estar
O coração do projeto é o seu caso de uso principal: “Território de Bem‑Estar”.
Através dele, o DEMO·GRAFO procura estabelecer evidências científicas que permitam compreender o que torna uma comunidade mais saudável, coesa e feliz, mesmo em contextos de declínio demográfico.
A ideia é simples e revolucionária: demonstrar com dados que certos ambientes rurais, longe de estarem condenados, são espaços onde se vive mais e melhor.
Para isso, o projeto desenvolve uma arquitetura de dados interoperável que integra informação demográfica, social, sanitária, económica e ambiental. A partir destas fontes, serão criados indicadores validados cientificamente que permitirão medir o bem‑estar e a qualidade de vida de forma multidimensional: desde a saúde física e cognitiva ao bem‑estar financeiro e à participação comunitária.
Os territórios piloto escolhidos — Zamora e Ourense, em Espanha — oferecem um cenário ideal para testar o modelo.
Ambas as províncias representam o núcleo do desafio demográfico europeu: regiões que envelhecem mais rapidamente do que a média, mas que também preservam valores comunitários, estilos de vida saudáveis e ambientes naturais de elevada qualidade.
Nelas será aplicado um rigoroso enfoque científico que permitirá testar a hipótese central do projeto: que o bem‑estar não depende apenas da quantidade de população, mas da qualidade das relações, dos serviços e da vida comunitária.
Ciência, tecnologia e governação
Para alcançar este objetivo, o DEMO·GRAFO construiu um modelo de governação de dados pioneiro, que garante a soberania, a privacidade e o uso ético da informação.
Cada ator — instituições, empresas, universidades, entidades locais — mantém o controlo dos seus dados, mas partilha‑os segundo regras comuns que asseguram a interoperabilidade e a transparência.
Esta governação ética e descentralizada é essencial para construir confiança social na economia do dado.
Além disso, o projeto incorpora a inteligência artificial não como um fim em si mesma, mas como uma ferramenta de conhecimento. Os algoritmos de aprendizagem automática permitirão identificar padrões de bem‑estar e fragilidade, antecipar cenários e apoiar decisões.
O objetivo não é apenas analisar o passado, mas prever o futuro e desenhá‑lo com base em evidências.
A força das sociedades longevas
O DEMO·GRAFO não é um projeto isolado: integra uma visão mais ampla impulsionada pelo CENIE para construir sociedades longevas conscientes, justas e sustentáveis.
Neste contexto, os dados não são frios nem impessoais: são uma forma de compreender a vida, valorizar o quotidiano e tomar decisões baseadas no conhecimento.
O projeto propõe uma transformação cultural profunda: passar do relato do declínio para o relato da possibilidade.
Cada quilómetro quadrado de Zamora, cada aldeia de Ourense, pode tornar‑se um Território de Bem‑Estar, um espaço onde a longevidade se vive com plenitude, dignidade e sentido.
Porque, no fundo, o propósito do DEMO·GRAFO não é apenas recolher informação, mas revelar que o bem‑estar também tem geografia: que existem lugares onde o tempo se torna um aliado e não um fardo.
Um legado para a Europa
Quando concluir a sua primeira etapa, em 2026, o DEMO·GRAFO terá estabelecido as bases para um modelo replicável.
A sua metodologia de análise, os seus algoritmos de previsão e o seu modelo de governação servirão de referência para novas gerações de espaços de dados sobre longevidade e coesão territorial.
O projeto demonstrará que a demografia não é destino, mas conhecimento em ação.
Como afirma a equipa do CENIE: “A longevidade não se mede apenas em anos, mas em oportunidades. E os dados, quando interpretados com propósito, são uma forma de esperança.”