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19/12/2025
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Michel Poulain em Salamanca: as chaves para uma vida longa e com sentido

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Há encontros que iluminam o tempo que vivemos.

 

A 15 de outubro de 2025, o Paraninfo da Universidade de Salamanca encheu‑se dessa luz: a que surge quando a ciência e a sabedoria se sentam a conversar.

 

O protagonista foi Michel Poulain, demógrafo belga e co-descobridor das Zonas Azuis, os lugares do planeta onde a longevidade não é uma exceção, mas uma forma de cultura.

 

Esse diálogo, moderado pelo jornalista e escritor Jesús Ruiz Mantilla, abriu uma das jornadas mais memoráveis do ciclo Conversas em Salamanca: compreendendo a longevidade, promovido pelo CENIE no âmbito do projeto Novas Sociedades Longevas (Interreg POCTEP 2021‑2027).

 

Não foi apenas uma conferência, mas um ato de síntese: a ciência do envelhecimento a encontrar a sua expressão humana.

 

A pergunta que inspira o CENIE

 

Porque é que algumas comunidades vivem mais e melhor?

 

A resposta, explicou Poulain, não se encontra num segredo genético nem num milagre geográfico.

 

Encontra‑se na forma como as pessoas vivem juntas, nos seus hábitos quotidianos, na sua maneira de entender o tempo e os vínculos.

 

Desde que, em 2000, identificou na Sardenha a primeira Zona Azul juntamente com Gianni Pes, Poulain cartografou territórios como Okinawa, Icária, Nicoya ou Loma Linda.

 

Em todos eles descobriu uma combinação comum: alimentação local e frugal, atividade física moderada, propósito de vida claro e, sobretudo, uma forte coesão comunitária.

 

Essa constelação de fatores demonstra que a longevidade não é apenas biologia: é cultura.

 

Como resumiu o cientista, “viver muito não basta; é preciso viver com sentido e em comunidade.”

 

A arte de viver melhor

 

As Zonas Azuis são, para o CENIE, um espelho do que procura com os seus projetos: transformar conhecimento em bem‑estar.

 

A conferência de Michel Poulain recordou que os anos ganhos à vida só se transformam em qualidade se forem construídos sobre três princípios: prevenção, pertença e propósito.

 

Prevenção, porque os estilos de vida saudáveis são a verdadeira medicina preventiva.

 

Pertença, porque as redes sociais e o apoio mútuo protegem mais do que qualquer tecnologia.

 

E propósito, porque as pessoas que sabem para que vivem são também as que permanecem ativas e felizes durante mais tempo.

 

Através de exemplos concretos — uma idosa de Okinawa que ainda cultiva a sua horta aos 95 anos, um grupo de amigos sardos que se reúne todas as tardes para cantar — Poulain devolveu ao público uma ideia poderosa: a longevidade é um facto coletivo.

 

Depende da forma como cada sociedade organiza o seu tempo, as suas relações e o seu equilíbrio entre corpo e espírito.

 

Um diálogo que deixa marca

 

O jornalista Jesús Ruiz Mantilla, com a sua reconhecida capacidade de unir ciência e emoção, conduziu o diálogo com o tom íntimo das boas conversas.

 

Perguntou, provocou, ligou a experiência científica de Poulain ao horizonte ético do CENIE: o que significa, na realidade, viver bem numa era em que a esperança de vida ultrapassa os 80 anos?

 

O público — investigadores, estudantes, profissionais de saúde e cidadãos — participou ativamente num colóquio que transformou a conferência num fórum vivo.

 

Falou‑se de hábitos e de políticas, de biologia e de cultura, da necessidade de desenhar cidades e comunidades que acompanhem o envelhecimento ativo.

 

O encontro tornou‑se, assim, uma lição partilhada sobre como fazer da longevidade uma oportunidade e não um fardo.

 

Salamanca: um farol do pensamento sobre a longevidade

 

Com este encontro, Conversas em Salamanca reafirmou o seu propósito: transformar a cidade universitária num ponto de referência internacional para o pensamento sobre a vida longa.

 

O ciclo, promovido pelo CENIE em colaboração com a Fundação Geral da Universidade de Salamanca, o Conselho Económico e Social de Portugal e o Instituto Politécnico de Bragança, procura abrir espaços de reflexão onde a ciência se exprima com proximidade e a cidadania encontre inspiração.

 

Cada edição une disciplinas: demografia, filosofia, medicina, economia, arte.

 

E é nessa diversidade que reside a sua força: compreender a longevidade como uma construção comum de conhecimento, cultura e valores.

 

Do conhecimento à ação

 

A mensagem que Michel Poulain deixou em Salamanca transcende a sala.

 

Recordou‑nos que o verdadeiro desafio não é prolongar a existência, mas organizar sociedades que tornem desejável viver muito tempo.

 

Nas suas palavras, “uma comunidade que cuida dos seus idosos está a investir no seu próprio futuro.”

 

Esse espírito coincide plenamente com a filosofia de Longevidade Consciente que orienta o CENIE: transformar o dado em decisão, a idade em experiência e o envelhecimento em projeto coletivo.

 

O pensamento de Poulain, ancorado na evidência e aberto à emoção, reforça a visão de que a saúde do corpo depende da saúde do vínculo.

 

Um referente para as sociedades longevas

 

Pela sua relevância científica, ressonância social e poder de inspiração, este encontro integra‑se como um dos Destaques do Ano 2025 do CENIE.

 

Porque resume numa única conversa aquilo que o CENIE procura desde a sua origem: unir conhecimento, ética e comunidade para compreender o que significa envelhecer em plenitude.

 

Quando a palavra se encontra com a ciência e ambas se abrem ao público, surge algo mais do que um debate: surge uma forma de esperança.

 

E foi isso que aconteceu em Salamanca.