16/05/2026

O cuidado como prioridade pública: uma prova de maturidade para as sociedades longevas

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Uma sociedade não se mede apenas pela sua esperança de vida, mas pelo que acontece quando alguém precisa de apoio. Essa é a pergunta incómoda —e decisiva— que atravessa o estudo O Direito ao Cuidado e a Economia dos Cuidados em Espanha, apresentado pelo CENIE no Círculo de Belas-Artes de Madrid. A mensagem de fundo é clara: os cuidados não podem continuar a ser um assunto privado resolvido, quase por inércia, dentro dos lares. Em sociedades longevas, o cuidado é uma política de país.

Do lar à agenda pública

Durante demasiado tempo, os cuidados foram narrados como algo natural, familiar, feminino e barato. Mas essa narrativa é enganadora. Quando o cuidado não é financiado, não é organizado e não é reconhecido, o seu custo não desaparece: desloca-se. E desloca-se para as famílias —em particular para as mulheres—, para as pessoas cuidadoras, para quem vive em situação de dependência, para as empresas e, em última instância, para o conjunto da sociedade.

A longevidade é uma das maiores conquistas sociais do nosso tempo. Mas transformá-la em bem-estar partilhado exige reorganizar os apoios à autonomia, a atenção à dependência, a vida familiar, os tempos de trabalho e os tempos de cuidado. O cuidado é, neste sentido, uma das grandes provas de maturidade do Estado do bem-estar.

Falar de cuidados é falar de direitos

O estudo apresentado pelo CENIE propõe colocar o cuidado no centro do debate público a partir de uma dupla perspetiva: jurídica e económica. Não se limita a afirmar que os cuidados importam: oferece enquadramento, evidência, diagnóstico e propostas para avançar para um sistema mais justo, mais inteligente e mais humano.
Porque falar de cuidados é falar também de direitos, igualdade, coesão social, território e futuro. Implica perguntar que direitos devem ser protegidos, que responsabilidades devem ser distribuídas, que desigualdades devem ser corrigidas e que investimento social é necessário para que o cuidado deixe de ser um fardo silencioso e se torne infraestrutura básica de bem-estar.

Um olhar ibérico no âmbito do IBERLONGEVA

A apresentação permitiu situar o estudo dentro da lógica do IBERLONGEVA, projeto que promove uma cooperação ibérica e europeia para enfrentar, a partir dos territórios, alguns dos grandes desafios associados à mudança demográfica. Neste contexto, o trabalho sobre Espanha será complementado com um estudo específico sobre Portugal, impulsionado pelo Conselho Económico e Social, com o objetivo de colocar ambos os diagnósticos em diálogo e construir um olhar ibérico mais completo sobre o desafio dos cuidados em sociedades longevas.

Esta dimensão comparada é essencial: as sociedades longevas não precisam apenas de diagnósticos nacionais, mas de aprendizagens cruzadas, evidência partilhada e soluções adaptáveis. A longevidade vive-se em territórios concretos, mas o desafio é comum.

Do diagnóstico à conversa pública

A jornada no Círculo de Belas-Artes esteve orientada para abrir conversa pública e ampliar olhares: contexto, perspetiva internacional, resultados do estudo, diálogo social e reflexão institucional. Participaram Carmen Hernández, subdiretora-geral de Cooperação Territorial Europeia; Jacek Barszczewski, da OCDE; os professores Ignacio Álvarez e Jorge Uxó, codiretores do estudo; Rosa Martínez, secretária de Estado dos Direitos Sociais; Luís Pais Antunes, presidente do Conselho Económico e Social de Portugal; Brenda Navarro, escritora, socióloga e economista; e Pablo Bustinduy, ministro dos Direitos Sociais, Consumo e Agenda 2030.

A presença de perfis diversos não foi um detalhe protocolar: foi coerente com a ideia central do estudo. O cuidado não é apenas sanitário. Não é apenas social. Não é apenas familiar. É uma arquitetura de país que atravessa economia, cultura, direitos, emprego e organização comunitária.

Uma conclusão civilizacional

Com esta apresentação, o CENIE reforça o seu compromisso com uma visão da longevidade entendida não como ameaça, mas como oportunidade para repensar instituições, políticas públicas e formas de organização social. Uma sociedade madura não é a que vive mais anos, mas a que responde melhor quando uma pessoa precisa de apoio e a que garante que esse apoio seja prestado em condições de dignidade.

O cuidado deve ser uma prioridade pública, uma base de igualdade, um investimento social e uma condição de dignidade. Não é um assunto secundário nem um apêndice assistencial: é um dos pilares das sociedades longevas que queremos construir.


Se o cuidado é a grande prova de maturidade de uma sociedade longeva, o que deveria mudar primeiro: o financiamento, a organização do sistema ou a cultura social que o continua a considerar “familiar”?