18/05/2026

Porque é que tomamos decisões tão más sobre a nossa velhice?

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Sabemos que deveríamos poupar mais, fazer exercício, rever o nosso testamento e pensar onde viveremos quando formos mais velhos. E custa-nos imenso fazê-lo. O que se passa connosco? Porque é que somos tão preguiçosos e imprevidentes? A explicação é-nos dada pela neurociência. O nosso cérebro está concebido para subvalorizar o futuro distante, para evitar as decisões dolorosas e para preferir o mal-estar conhecido à mudança incómoda.

Neste artigo explico-te como funcionam os enviesamentos cognitivos que nos impedem de nos prepararmos para a velhice, quais são os mais prejudiciais e, sobretudo, que estratégias concretas podemos usar para os neutralizar antes que seja demasiado tarde.

O estranho que serás

O problema central não é a falta de vontade. É algo mais profundo: o cérebro processa o teu eu do futuro da mesma forma que processa um desconhecido. O psicólogo Hal Hershfield, da Universidade de Stanford, demonstrou que o teu eu de 75 anos é, literalmente, um estranho para o teu cérebro de 40. Vemo-nos como autênticos desconhecidos e, obviamente, que sentido faz fazer coisas por um desconhecido?

Por isso vou propor-te um exercício simples que te ajudará a aproximares-te do teu Eu do futuro, esse desconhecido de quem deves tornar-te amigo quanto antes. A IA vai ajudar-nos: carrega a tua imagem na IA que usas habitualmente e inclui esta instrução: “esta imagem sou eu atualmente e quero saber como serei quando tiver 60, 70, 80 ou até 100 anos”. Espera pelo resultado e observa-o. Essa é uma possível versão de ti dentro de alguns anos. Analisa o que sentes ao olhar para ti e tenta ser empático contigo próprio, porque esse Eu vai precisar de toda a tua ajuda para chegar a ser a melhor versão de si mesmo.

O enviesamento do presente: o ladrão silencioso

Por outro lado, o nosso cérebro tende a dar prioridade às recompensas imediatas em detrimento dos benefícios futuros, um fenómeno amplamente estudado por psicólogos, economistas e neurocientistas, conhecido como desconto hiperbólico ou enviesamento do presente.

O nosso sistema límbico ativa-se com intensidade perante os estímulos do presente, enquanto o córtex pré-frontal, encarregado do planeamento racional, trabalha de forma mais lenta e fria. Num duelo entre o prazer de hoje e a segurança de amanhã, o prazer ganha quase sempre, e a consequência prática é devastadora. Isso explica, por exemplo, que, embora quase 60% dos cidadãos europeus maiores de idade reconheça estar preocupado com a possibilidade de não ter dinheiro suficiente na reforma, não se tenha verificado um aumento significativo das taxas de poupança nos últimos anos. O enviesamento do presente explica essa diferença entre intenção e comportamento.

A aversão à perda: porque é que a mudança dói

Destinar parte do salário a um plano de pensões é percecionado psicologicamente como uma perda, não como uma poupança, e perder dói-nos 2,5 vezes mais do que aquilo que nos alegra um ganho equivalente. Este enviesamento, documentado por Kahneman e Tversky, tem consequências diretas no planeamento da velhice: o cérebro regista-o como uma ferida, embora em termos racionais seja exatamente o contrário. Não importa que, dentro de trinta anos, esse dinheiro seja a diferença entre a dignidade e a dependência. O cérebro vê apenas aquilo que perde hoje.

Agora que já conheces estes dois enviesamentos, pergunto-te: estás a poupar o suficiente? Poderias poupar mais? E proponho-te um exercício: automatiza a tua poupança para não deixares espaço aos enviesamentos perniciosos. Domicilia uma transferência mensal para uma conta-poupança ou plano de pensões no mesmo dia em que recebes o salário. Aquilo que o cérebro não vê, não sente falta.

O enviesamento do otimismo: “a mim não me vai acontecer”

O enviesamento do otimismo leva-nos a pensar que, no futuro, é menos provável que venhamos a viver certos acontecimentos negativos. Em geral, custa-nos imaginar-nos como pessoas mais velhas com limitações: imaginamo-nos como idosos atraentes, saudáveis e ativos, como aqueles que costumamos ver nos anúncios, e não como aqueles pobrezinhos que mal chegam ao fim do mês com a sua pensão limitada.

Este enviesamento é especialmente perigoso porque tem aparência de virtude. A pessoa otimista parece resiliente, positiva, vital, mas o que na realidade está a fazer é adiar indefinidamente uma planificação que é urgente. E tu, como te vês: mais jovem e melhor do que os outros?

O statu quo: ficar quieto também é uma decisão

A maioria das pessoas ou não planifica, ou planifica deficientemente, a última etapa da sua vida porque é incapaz de se organizar num contexto de incerteza ou porque sofre bloqueios psicológicos ou sociais em consequência da sua educação e do seu meio. Tendemos a aceitar aquilo que nos é dado e a continuar com aquilo que sempre fizemos, e isso impede-nos de incorporar novos hábitos na nossa vida, como pode ser a poupança.

No entanto, a inércia não é neutra: cada ano que passa sem planificar a velhice é uma decisão ativa de não o fazer, ainda que se sinta como uma não-decisão. E tu, em que grupo estás? No dos que avançam ou no dos que estão confortavelmente instalados na sua zona de conforto? Decide e informa os teus entes queridos sobre aquilo que vais fazer — abrir esse plano de pensões, rever o testamento, marcar uma reunião com um consultor, ir ao notário, etc. O compromisso público ativa mecanismos de consistência que a decisão privada não ativa.

O que funciona: desenhar contra os teus próprios enviesamentos

A ciência do comportamento não nos pode dar mais anos, mas pode ajudar-nos a fazer com que os anos que temos sejam vividos com agência e não com medo. O cérebro que sabota a tua planificação não é teu inimigo: é um órgão evolutivo a fazer o seu trabalho. O teu trabalho é compreender como funciona para que não siga em piloto automático, mas dirigido por ti. Começa já a tomar decisões e não deixes que os teus enviesamentos te dominem.

 

Autoría: María Jesús González Espejo