25/06/2026

Vivemos mais, mas continuamos a chegar tarde

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A Espanha e a Itália têm as taxas de natalidade mais baixas do mundo e a maior percentagem de população com mais de 65 anos da história. E, no entanto, nós, latinos, não gostamos de “nos preparar para o que vem”; preferimos a improvisação.

Neste artigo reflito sobre porque é que os cidadãos dos países do sul da Europa e da Ibero‑América somos, em geral, tão maus a planear a nossa velhice. É cultura, é sistema ou é biologia? Depois de analisar as causas, proponho também uma mudança urgente de perspetiva, porque o envelhecimento não é uma ameaça futura: é uma realidade já presente, que nos vai apanhar, mais uma vez, desprevenidos.

Em 2070, a Espanha terá cerca de 227.000 centenários. Hoje tem 14.277. Somos, juntamente com a Itália, os campeões mundiais da longevidade e, ao mesmo tempo, o país desenvolvido que menos se preparou para viver muito tempo. Se isto fosse uma disciplina, teríamos reprovado.

Atualmente, um em cada cinco espanhóis tem mais de 65 anos. Em 2045 será um em cada três. E a proporção de trabalhadores que sustentam o sistema está a desabar: em 1980 havia 5,3 trabalhadores por cada pensionista. Hoje são 2. Em 2060 serão 1,3 — ou seja, uma pessoa financiará quase por completo a pensão de outra.

O perigo de um Estado excessivamente generoso

E neste contexto, o que fazemos para garantir rendimentos suficientes na velhice? Pouco e mal, porque quase todos estamos acomodados num sistema público “tio patinhas”, tão generoso que quase ninguém sente necessidade de poupar. Quando te reformas, cai‑te uma pensão “pela graça de Deus”. Assim, muitos pensam: para que vou poupar se o Estado já o faz por mim?

Por isso, os espanhóis preferem ter o dinheiro na conta ou em depósitos, mas não em planos ou fundos de pensões. Tentaram‑se mecanismos de poupança com apoio das empresas, mas por agora não estão a funcionar.

E este padrão repete‑se com precisão inquietante noutros países do sul da Europa e do outro lado do Atlântico. No Equador, por exemplo, apenas um em cada quatro maiores de 65 anos recebe uma pensão. Os restantes têm um plano alternativo: continuar a trabalhar — 82% deles na informalidade. Segundo inquéritos de capacidades financeiras da CAF e da OCDE no Brasil, Colômbia, Equador e Peru, uma parte significativa da população destes países tem baixos níveis de literacia financeira e pouca preparação para a velhice. Na Ibero‑América, só 17 em cada 100 trabalhadores independentes contribuem para algum sistema de previdência. O resto confia na família, no Estado, na sorte ou nos três ao mesmo tempo.

É cultura, sistema ou biologia?

Provavelmente estamos perante uma mistura destes ingredientes: Uma cultura tradicionalmente familiarista leva‑nos a pensar que connosco acontecerá o clássico “os meus filhos cuidarão de mim”. Um sistema providencialista como o nosso desincentiva a poupança. E, finalmente, a biologia não ajuda: os humanos não gostam de planear e o nosso cérebro alberga o viés do presente, que processa a pessoa que seremos daqui a 30 anos quase como se fosse uma estranha.

Além disso, há algo culturalmente partilhado no mundo latino: o presentismo, uma relação com o tempo em que o presente vence sempre o futuro. Um traço que se explica por sistemas que falharam historicamente e por crises económicas que destruíram as poupanças de toda uma vida. Desconfiar do longo prazo faz sentido — mas tem um custo enorme.

Por isso, se queremos mudar, precisamos de compreender como somos individual e socialmente e aceitar que o nosso sistema não é sustentável.

Uma mudança de olhar urgente

O envelhecimento não é uma ameaça futura. Já está aqui. E continuamos a falar dele no futuro, como se tivéssemos tempo. Não temos. Mas há três coisas que podem mudar o nosso destino:

Introduzir mudanças nos sistemas para incentivar a poupança, através de instrumentos já usados com sucesso noutros países: contribuições obrigatórias, inscrição automática, incentivos fiscais reais, planos de pensões de empresa como alavanca coletiva.

Começar a poupar cedo, mesmo que pouco. Compreender que o juro composto é a única magia que existe nas finanças.

Mudar o relato: deixar de apresentar a velhice como catástrofe e começar a tratá‑la como uma etapa que merece ser desenhada. A isso chamo “envelhecimento inteligente” ou smart ageing.

Os países do sul da Europa e da Ibero‑América construíram algumas das civilizações mais sofisticadas da história. Resolvemos problemas enormes — e este também podemos resolver. Mas só se deixarmos de fingir que não existe.

O despertador toca há anos. Está na hora de nos levantarmos. Convido‑te a deixar o clube da improvisação e a juntar‑te ao da longevidade consciente.