Fernando Ónega, o jornalismo como serviço… e a longevidade como agenda do país
Há trajectórias que se medem em prémios, audiências ou exclusivas. E depois há a de Fernando Ónega, que se mede melhor em algo mais difícil de quantificar: a confiança pública. Morreu em Madrid aos 78 anos, deixando uma marca rara nestes tempos: a de um jornalista respeitado por quem pensava como ele… e também por quem não pensava.
Ónega foi um cronista essencial da política espanhola contemporânea e, em particular, da Transição. A sua assinatura — por vezes visível, por vezes discreta — esteve onde se escrevia a história e onde se explicava ao país o que estava a acontecer. Entre os muitos marcos dessa etapa, há um que ficou gravado no imaginário colectivo: o “Posso prometer e prometo”, parte dos discursos que redigiu para Adolfo Suárez a partir da responsabilidade institucional da Presidência.
A sua carreira atravessou imprensa, rádio e televisão com uma versatilidade que hoje parece quase ficção científica: redacções, informativos, análise e direcção. Trabalhou em meios que definiram épocas e estilos — Cadena SER, COPE, Onda Cero, Telecinco, Antena 3, entre outros — e tornou-se uma referência pela sua forma de contar: clareza sem exageros, dados sem pedantismo, opinião sem sectarismo.
Mas se hoje o CENIE o quer recordar com um ênfase particular, não é apenas pelo que representou na história do jornalismo, mas pela decisão — profundamente política, no melhor sentido — de dedicar os seus últimos anos profissionais a dar voz a uma realidade que estava ali, a crescer, e que demasiadas vezes era tratada como um tema “de nicho”: a longevidade e as condições de vida de quem sustenta a sociedade com uma longa experiência.
Essa decisão ganhou forma no 65YMÁS, o meio que contribuiu de forma decisiva para colocar o envelhecimento e a longevidade no centro do debate público espanhol. Ónega integrou-se como presidente do Comité Editorial e, mais tarde, assumiu a presidência do jornal com um propósito explícito: liderar aquilo que o próprio meio chamou de “revolução sénior”, ou seja, o salto da resignação demográfica para a cidadania plena e exigente de uma geração com direitos, critério e capacidade de influência.
Convém dizê-lo sem rodeios: o 65YMÁS não foi “um jornal para idosos”. Foi — e é — um jornal para uma sociedade que envelhece, que muda a sua estrutura laboral, sanitária, familiar e económica, e que precisa de falar disso sem condescendência. Essa nuance muda tudo. Onde outros viam um segmento, Ónega ajudou a construir uma agenda: pensões e emprego, sim, mas também idadismo, saúde, cuidados, participação, cultura, tecnologia, solidão, habitação e o direito a continuar a estar. E fazê-lo com jornalismo: com perguntas, com contraste, com acompanhamento. (Nada de “animação sociocultural” disfarçada de notícias: informação da que incomoda e, por isso mesmo, serve).
Nesse sentido, a sua contribuição foi estratégica. Porque uma sociedade não se transforma apenas com leis ou orçamentos: transforma-se com conversa pública. E a conversa pública, quando é boa, exige meios que não olhem para a longevidade como uma nota de rodapé. Ónega entendeu que o desafio não era “falar de idosos”, mas colocar o fenómeno demográfico no lugar que lhe corresponde: o de uma das grandes forças que estão a reorganizar o século XXI.
O CENIE trabalha precisamente nesse cruzamento: conhecimento, cultura e políticas públicas para compreender e acompanhar a mudança demográfica. Por isso valorizamos de forma especial que um profissional com a trajectória e a autoridade de Ónega tenha escolhido, na recta final da sua carreira, colocar-se ao serviço desta conversa. O seu prestígio funcionou como alavanca: ajudou a que a longevidade entrasse em gabinetes onde antes chegava tarde, e a que fosse levada a sério em espaços mediáticos onde antes era tratada com paternalismo ou clichés.
Fica o seu legado jornalístico, naturalmente. E fica também uma lição: que a neutralidade não consiste em não se comprometer, mas em comprometer-se com o rigor. Que o respeito não se exige; constrói-se. E que uma sociedade longeva precisa de algo tão básico quanto revolucionário: meios que a olhem de frente.
Fernando Ónega já não está, mas a conversa que ajudou a abrir — a de uma longevidade vivida com direitos, com dignidade e com voz própria — não só continua: agora é inevitável. E nessa inevitabilidade, fica a sua marca.