O direito a falhar: fragilidade, erros e recomeços em sociedades longevas
Viver mais anos também significa ter mais ocasiões para nos enganarmos.
Em sociedades longevas, onde a vida se estende para além do que durante séculos considerámos “normal”, o erro deixa de ser um episódio pontual para se tornar parte do percurso. No entanto, continuamos a habitar uma cultura que penaliza a falha, que exige coerência perfeita e que interpreta a fragilidade como fracasso.
Talvez tenha chegado o momento de formular uma ideia incómoda, mas necessária: o direito a falhar também é um direito da longevidade.
O erro como parte da vida prolongada
Durante muito tempo, a vida foi entendida como uma sequência relativamente curta e previsível: estudar, trabalhar, formar família, reformar-se. Nesse esquema, errar era um desvio que tinha de ser corrigido o mais rapidamente possível.
Mas as sociedades longevas quebraram essa linearidade. Hoje, uma vida pode incluir várias carreiras profissionais, ruturas afetivas tardias, reinvenções pessoais depois dos 60, decisões que se tomam — e se revêm — em idades antes impensáveis.
Neste contexto, falhar não é uma anomalia: é uma consequência natural de viver mais e decidir mais.
Negar o erro numa vida prolongada é negar a própria condição humana.
Fragilidade não é fracasso
Um dos grandes mal-entendidos culturais do nosso tempo é confundir fragilidade com incompetência.
Envelhecer implica mudanças físicas, emocionais e cognitivas. Implica perdas, sim, mas também aprendizagens.
Contudo, o olhar social tende a reduzir a fragilidade a um rótulo: dependência, declínio, inutilidade.
Aceitar a fragilidade não significa renunciar à dignidade. Pelo contrário: é uma forma de honestidade vital.
As sociedades longevas precisam de uma ética que reconheça que nem tudo pode ser controlado, que nem todas as decisões serão acertadas e que a vida não se avalia apenas pelos resultados, mas pelo seu percurso.
A fragilidade não invalida; humaniza.
O peso moral de não poder falhar
Numa cultura obcecada pelo desempenho, o erro vive-se como culpa. Isto é particularmente cruel em idades avançadas, onde se espera prudência, serenidade e acerto permanente.
Às pessoas mais velhas concede-se experiência, mas nega-se-lhes margem de erro.
Um projeto que não resulta, uma decisão económica desacertada, uma relação que se rompe tarde… tudo parece mais grave quando acontece “a essa idade”.
Esta pressão silenciosa gera medo: medo de tentar, de mudar, de arriscar.
E sem risco, a vida torna-se defensiva. Longeva, mas estreita.
Vidas longevas e o direito a recomeçar
Falar do direito a falhar é, na realidade, falar do direito a recomeçar.
Em contextos onde a vida se estende por décadas mais do que foi habitual, já não é razoável organizar a existência como se tudo dependesse de uma única tentativa correta.
As vidas longevas precisam de estruturas — sociais, laborais e culturais — que admitam trajetórias não lineares, decisões revisáveis e mudanças de rumo sem estigmas. Porque viver mais implica, necessariamente, decidir mais vezes… e falhar mais vezes também.
Isto atravessa domínios muito concretos: o emprego sénior, a formação ao longo da vida, as relações pessoais que se transformam tarde, o acesso à cultura, a participação cívica ou o compromisso social em fases avançadas.
Uma pessoa de 65 ou 70 anos não é um projeto esgotado nem uma biografia encerrada: é um processo aberto, ainda em construção, com capacidade de aprendizagem, contributo e transformação.
Reconhecê-lo não é romantismo nem voluntarismo. É realismo demográfico e justiça vital em sociedades que, simplesmente, vivem mais tempo.
O erro como aprendizagem tardia
Um dos privilégios de viver mais tempo é poder reler a própria vida.
O erro, visto à distância, transforma-se. O que foi tropeço pode tornar-se compreensão; o que foi perda, critério; o que foi engano, sabedoria prática.As pessoas mais velhas não acumulam certezas: acumulam discernimento.
E esse discernimento nasce, muitas vezes, de ter falhado antes.
Uma sociedade que não permite o erro na velhice priva-se de uma das suas maiores fontes de aprendizagem coletiva.
Cuidar sem infantilizar
O debate sobre a fragilidade tende a derivar para uma sobreproteção que roça a infantilização.
Cuidar não é impedir que o outro decida; é acompanhar decisões, mesmo quando existe risco.
Em sociedades longevas, proteger sem anular a autonomia é um dos maiores desafios éticos.
Negar o direito a falhar “para teu bem” pode acabar por negar o direito a viver plenamente.
A dignidade não está em não errar, mas em poder escolher.
Uma sociedade que sabe perdoar
O direito a falhar não é apenas individual; é coletivo. Uma sociedade longeva precisa de aprender a perdoar trajetórias irregulares, decisões tardias, caminhos não normativos. Precisa de narrativas que não glorifiquem apenas o sucesso contínuo, mas a capacidade de recompor-se.
Talvez o verdadeiro progresso não consista em evitar o erro, mas em construir comunidades capazes de o sustentar sem expulsão nem vergonha.
Permites-te hoje falhar com a mesma liberdade com que te permitias tentar quando eras mais jovem?