Trabalho, retiro e novas idades laborais
Durante décadas, a vida laboral foi entendida como uma linha reta com um final claro.
Estudava-se, trabalhava-se de forma contínua e, chegada uma determinada altura, abandonava-se definitivamente o emprego para entrar na reforma. Esse esquema, que funcionou em sociedades de vidas mais curtas e trajetórias estáveis, já não corresponde à realidade das sociedades longevas.
Hoje vivemos mais anos, com melhor saúde durante mais tempo, e atravessamos múltiplas transições vitais. Neste novo contexto, a pergunta já não é apenas quando nos reformamos, mas como queremos relacionar-nos com o trabalho ao longo de uma vida extensa.
O esgotamento do modelo binário
O modelo tradicional divide a vida adulta em dois grandes blocos: atividade e retiro. Trabalho ou reforma. Dentro ou fora. Produtivo ou dependente. Esta lógica binária condicionou políticas públicas, enquadramentos laborais e expectativas sociais durante décadas.
Mas a longevidade tornou visível o seu principal limite: a vida não se comporta de forma binária.
Muitas pessoas desejam continuar a trabalhar depois da idade legal da reforma, embora não necessariamente nas mesmas condições. Outras precisam de reduzir a sua dedicação antes de chegar a essa idade. Outras ainda alternam períodos de emprego, cuidado, formação ou empreendedorismo tardio.
A rigidez do modelo não responde à diversidade real das trajetórias vitais.
Vidas longas, trajetórias laborais múltiplas
Em sociedades longevas, uma carreira profissional já não se concentra num único ofício nem numa única etapa. É cada vez mais frequente encontrar biografias laborais com pausas, reinvenções, regressos e mudanças de ritmo.
Isto não é uma anomalia: é uma consequência direta de viver mais tempo.
Quando a vida se estende, o trabalho deixa de ser uma fase e transforma-se numa relação mutável.
A chave já não é trabalhar mais anos, mas trabalhar de outra forma, com maior flexibilidade, autonomia e sentido.
O retiro como transição, não como rutura
A reforma, tal como foi concebida, marcava uma fronteira nítida: passava-se da atividade ao retiro definitivo. Hoje, essa fronteira torna-se porosa.
Para muitas pessoas, o retiro é uma transição progressiva: redução do horário, mentoria, trabalho por projetos, colaboração pontual, voluntariado estruturado ou empreendedorismo social. Não se trata de prolongar a vida laboral por obrigação, mas de evitar uma desconexão abrupta que empobrece tanto a pessoa como a sociedade.
Pensar o retiro como transição permite cuidar da saúde, adaptar ritmos e manter vínculos sociais e profissionais.
O valor do trabalho para além do emprego
Em sociedades longevas, o trabalho não pode ser reduzido ao emprego formal.
Cuidar, ensinar, acompanhar, transmitir experiência, participar na vida comunitária ou contribuir para o conhecimento são formas de trabalho socialmente valiosas, embora nem sempre remuneradas.
O problema é que os nossos sistemas de reconhecimento continuam quase exclusivamente ligados ao emprego. Isto invisibiliza uma enorme quantidade de contributos realizados, especialmente em idades avançadas.
Repensar o trabalho implica alargar a noção de contribuição, não diluí-la.
Empresas perante o desafio da idade
As organizações também são chamadas a transformar-se. A gestão da idade continua a ser um dos grandes tabus do mundo laboral. Persistem preconceitos sobre a capacidade de aprendizagem, a adaptação tecnológica ou a produtividade das pessoas mais velhas.
No entanto, a evidência mostra que as equipas intergeracionais são mais resilientes, mais criativas e tomam decisões mais equilibradas.
Aproveitar a experiência acumulada não é uma concessão: é uma estratégia.
As empresas que não saibam integrar idades diversas perderão talento, conhecimento e continuidade.
Formação ao longo da vida
As novas idades laborais exigem uma educação verdadeiramente contínua. Não se trata de requalificar apenas quando o mercado o exige, mas de manter aberta a possibilidade de aprender em qualquer etapa da vida.
A formação tardia não é um remendo de emergência; é uma condição estrutural das sociedades longevas. Sem ela, as trajetórias híbridas tornam-se privilégio de alguns.
Investir na aprendizagem ao longo da vida é investir em empregabilidade, autonomia e dignidade.
Políticas públicas para trajetórias flexíveis
O fim do binómio trabalhar/reformar-se exige enquadramentos normativos mais flexíveis: compatibilizar pensão e trabalho, facilitar transições graduais, reconhecer contributos não convencionais e proteger quem não pode prolongar a sua vida laboral.
Nem todas as pessoas envelhecem da mesma forma nem trabalham nas mesmas condições.
A justiça intergeracional não consiste em impor soluções homogéneas, mas em oferecer opções reais e equitativas.
Para além do medo da longevidade laboral
Frequentemente, o debate sobre trabalho e longevidade é colocado em termos defensivos: medo de perder direitos, de adiar a reforma ou de precarizar a velhice. Estes receios são legítimos.
Mas o verdadeiro risco não é repensar o trabalho, é não o repensar. Manter um modelo rígido numa sociedade flexível gera exclusão, frustração e desperdício de capacidades.
A longevidade não deveria ser vivida como uma condenação a trabalhar mais, mas como uma oportunidade para reordenar o sentido do trabalho ao longo da vida.
Como gostarias que fosse a tua relação com o trabalho quando tiveres mais vinte anos do que tens hoje?