A longevidade ampliou o tempo, mas não resolveu o fim. Deslocou-o, medicalizou-o, encheu-o de silêncios. E há algo profundamente humano que continua a ficar fora dessa conversa: a possibilidade de morrer como cada um quer.
Marisa Rodríguez tem 82 anos e um cancro metastático sem opção de tratamento curativo. Nascida na Galiza, emigrou para Barcelona aos 16 anos, perdeu a mãe aos 15, um filho por overdose, o marido quando o luto se tornou insustentável. E agora vive em Sant Feliu de Llobregat com o seu filho José, acompanhada pela equipa PADES de cuidados paliativos domiciliários.
Poderia ser apenas mais uma história. Mas Marisa não fala como alguém que se está a despedir. Fala como alguém que sabe o que quer.
“Não quero que me liguem a máquinas. Não quero que me prolonguem a vida, se já não sou eu.”
Durante décadas, o progresso médico mediu-se em termos de sobrevivência. Mais anos, mais tratamentos, mais possibilidades. Mas, cada vez com mais frequência, essa lógica encontra um limite. O que acontece quando continuar a prolongar a vida deixa de fazer sentido para quem a vive?
“Vivi muito. Não preciso de mais tempo a qualquer preço.”
Não há resignação nessa frase de Marisa. Há hierarquia. E essa hierarquia é exatamente o coração dos cuidados paliativos: não curar quando já não é possível, mas cuidar de outra forma. Sustentar a vida com dignidade, aliviar o sofrimento, acompanhar. E, no entanto, continuamos a chegar tarde a essa conversa.
Marisa tem tudo preparado: testamento, últimas vontades, instruções claras. Quer uma despedida laica, sem cerimónias, sem flores. E que o dinheiro que outros gastariam no funeral seja doado à investigação do cancro.
“Gostaria que a minha morte servisse para alguma coisa.”
Mas aqui surge uma tensão que atravessa muitas histórias como a sua. Quando o seu estado piorou e deixou de comer, os serviços sociais intervieram e acabou por viver com o filho, embora não fosse isso que ela tinha escolhido. Queria viver sozinha. Era a sua decisão.
Este conflito — entre proteger e respeitar — é um dos grandes dilemas da longevidade contemporânea. Até que ponto respeitamos a vontade de uma pessoa quando ela implica risco? Onde acaba o cuidado e começa a substituição da sua decisão? Não há respostas simples. Mas há uma certeza: viver mais anos sem poder decidir como terminá-los abre uma nova forma de vulnerabilidade que o sistema ainda não sabe bem como gerir.
Perante esse silêncio, no entanto, começam a surgir espaços que tentam devolver a morte ao lugar de onde nunca deveria ter saído: a vida partilhada. Porque falar de morrer bem não é tarefa apenas dos médicos. É uma conversa que pertence a toda a comunidade.
Um desses espaços é O ciclo da existência, impulsionado no Centro Cívico La Marina de Barcelona pela doutora Ylenia García Navarro, médica de família e responsável pela área de Bem-Estar e Desenvolvimento na Gerência de Cuidados de Saúde Primários do Baix Llobregat. Foram cinco sessões. Cinco formas de olhar para aquilo que poucos se atrevem a olhar.
A primeira sessão abordou a biologia do morrer: os medos, as formas, o que acontece quando alguém resiste.
A segunda explorou o acompanhamento — com uma conclusão que desconcerta pela sua simplicidade: acompanhar é, no fim, não fazer nada. Estar. A terceira foi um diálogo entre um médico e um filósofo. A quarta reuniu diferentes culturas em torno dos seus rituais perante a morte: Índia, Marrocos, comunidade cigana, América Latina. A quinta, com o doutor Arráez, entrou na dimensão mais difícil de nomear: a consciência.
Aquilo que talvez não desapareça. Essa parte mais metafísica do que é a morte.
Mas talvez o mais importante não tenha sido o conteúdo. Foi o gesto. Sentar-se a falar da morte em comunidade. Recuperar essa consciência de tribo perante algo tão democrático e inevitável como morrer.
Essa mesma perspetiva está na base do trabalho da Fundação Metta-Hospice, que parte de uma ideia simples: morrer não é apenas um processo clínico. É uma etapa essencial da vida que também precisa de ser acompanhada. Um grupo diverso de profissionais — de saúde e não de saúde — trabalha com um propósito comum: estar ao lado das pessoas nessa passagem. Acompanhar sem invadir. Sustentar sem impor. E também cuidar depois, no luto, com uma ênfase particular na dimensão espiritual: não necessariamente religiosa, mas como essa necessidade humana de encontrar sentido quando tudo o resto vacila.
Formar nesse tipo de acompanhamento é, no fundo, voltar a aprender algo que durante séculos foi natural: como estar quando alguém parte.
Marisa não fala da morte com medo.
“Não tenho medo dela. Conheço-a.”
Viu morrer o marido, o filho, pessoas do seu bairro. A morte não é uma ideia. É experiência. E talvez por isso, quando olha para a sua vida, não fala de conquistas nem de tempo.
“O carinho. É isso que fica quando tudo o resto se vai.”
Numa sociedade obcecada em prolongar a vida e otimizar o corpo, esta afirmação desloca o foco para outro lugar: a qualidade do vínculo. O que damos. O que recebemos. O que permanece.
Há uma frase que atravessa toda a história de Marisa: seguir em frente. Disse-a quando emigrou aos 16 anos. Disse-a quando encontrou o filho morto. Di-la agora, com um diagnóstico sem volta atrás e com a paz que sente.
“Que lute. Que nunca desista. As coisas acabam sempre por passar. E a única maneira de passarem é continuar.”
A sua tia dizia que a morte é um tango e a vida um pasodoble, e que cada um o dança como lhe toca. Marisa dançou com perdas, com emigração, com luto, com doença. E continua a dançar. Como forma de viver.
Nesse “continuar” há algo mais do que resistência. É a sua maneira de estar viva, mesmo quando tudo acaba. E há uma enorme lição: morrer bem começa muito antes de morrer. Começa quando decidimos como queremos viver. E quando nos atrevemos a dizê-lo em voz alta.