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A fronteira mais decisiva: encurtar a distância entre longevidade e saúde
Na Península Ibérica conquistámos algo extraordinário: nunca antes tínhamos vivido tanto. Espanha e Portugal figuram entre os países com maior esperança de vida do mundo. Mas esse triunfo encerra uma paradoxa silenciosa: os anos acumulam-se, sim, mas nem sempre se vivem com boa saúde. Uma parte significativa desses anos ganhos decorre com limitações, doenças ou perda de autonomia. Essa é a verdadeira brecha: a que separa os anos vividos dos anos vividos com bem-estar.
Essa brecha é hoje a fronteira mais decisiva do nosso tempo. Não divide países, mas sim qualidade de vida. Recorda-nos que o progresso biológico sem bem-estar social é uma vitória incompleta. Que não basta prolongar a existência se não formos capazes de acrescentar qualidade, participação e sentido a cada etapa da vida.
IBERLONGEVA nasceu precisamente para atuar nessa fronteira. Não procura apenas prolongar a existência, mas alargar o bem-estar; não conta apenas os anos, procura contar melhor a vida. Trata-se de um projeto transfronteiriço – entre Espanha e Portugal – coordenado pelo CENIE, em colaboração com a Universidade de Salamanca, a Universidade de Vigo e o Instituto Politécnico de Bragança, financiado pelo programa Interreg VI-A Espanha–Portugal (POCTEP) da União Europeia.
Um enfoque integral para uma longevidade com sentido
O projeto estrutura-se a partir de várias chaves que o tornam singular e inspirador. Primeiro: territórios pioneiros. Três cenários: a cidade de Zamora (Espanha), a província de Ourense (Espanha) e o distrito de Bragança (Portugal) – que representam realidades urbanas, semiurbanas e rurais. Segundo: uma amostra de pessoas com mais de 60 anos, que participam ativamente não apenas como sujeitos de estudo, mas como protagonistas do conhecimento que se produz. Terceiro: combinar a investigação social, clínica e tecnológica (uso de inteligência artificial para detetar padrões de fragilidade) com a participação comunitária, para transformar os dados em ação.
Este enfoque tem três grandes elementos:
- Ciência com propósito: não uma investigação isolada, mas uma que se orienta para políticas, serviços e bem-estar.
- Prevenção a partir do conhecimento: antecipar a fragilidade antes que se instale, e atuar com recursos acessíveis, personalizados e territoriais.
- Compromisso com o território: estes contextos transfronteiriços envelhecem rapidamente, têm desafios demográficos acelerados (Zamora, Ourense, Pinhal Interior Sul…) e requerem respostas adaptadas.
Medir para transformar: a ciência de IBERLONGEVA
Em 2025, IBERLONGEVA deu passos importantes: constituiu o grupo de trabalho multidisciplinar, definiu protocolos de recolha de dados (questionários, provas funcionais, avaliações de saúde) e avança na digitalização da informação para construir um observatório de longevidade (OLAS: Observatório para uma Longevidade Ativa e com Sentido). Os dados preliminares situam em mais de 20 anos a distância entre a esperança de vida total (83,3 Espanha; 81,6 Portugal) e a esperança de vida saudável (≈61 Espanha; ≈59,7 Portugal).
O objetivo não é apenas diagnosticar, mas intervir: detetar fatores de risco de fragilidade, desenhar ambientes adaptados, promover hábitos de vida saudável, reforçar o apoio comunitário. Em outras palavras: que os anos ganhos não se convertam em anos com limitações, mas em anos de autonomia, participação, bem-estar.
Uma aliança ibérica com vocação de transformação
O que faz de IBERLONGEVA um marco do ano do CENIE é o seu caráter de aliança: não um projeto local, mas uma resposta partilhada entre dois países, em territórios que não esperam o futuro: vivem-no já. Essa cooperação hispano-portuguesa acrescenta escala, diversidade e coerência ao desafio da longevidade saudável.
Além disso, o projeto une atores muito distintos: universidades, centros de enfermagem, escolas de saúde, entidades tecnológicas, serviços públicos, comunidades locais. Essa transversalidade é o que permite pensar a longevidade não como tema de especialistas, mas como um assunto de cidadania ativa e de políticas públicas integradas.
Uma prova desse compromisso é que IBERLONGEVA se lança em 2025 com a vontade de deixar legado: não apenas publicações académicas, mas um observatório permanente, dados acessíveis, ferramentas para os profissionais e a sociedade, modelos de prevenção replicáveis noutros territórios.
Da preocupação à esperança
Quando falamos de envelhecimento, referimo-nos muitas vezes ao “problema” de viver mais anos. IBERLONGEVA dá uma volta: propõe que viver mais pode ser uma vantagem se vivermos melhor. Essa é a promessa que o converte numa ação destacada. Muitas iniciativas medem a fragilidade; esta mede a oportunidade.
Imaginemos que se conseguisse reduzir essa brecha de mais de 20 anos entre viver e viver bem. Significaria menos dependência, menos encargos para os sistemas de saúde, mas também — e sobretudo — mais vida plena para milhões de pessoas. Essa visão não é utópica: é científica, comunitária, territorial. É IBERLONGEVA.
Porque é que este projeto é um dos grandes do ano?
Porque sintetiza a missão do CENIE: converter a longevidade em saúde, em participação, em sentido. Porque coloca no centro o que muitas vezes se vê como marginal: os anos que vivemos com autonomia. Porque articula ciência, território, comunidade. E porque oferece um modelo escalável: referências para Espanha, para Portugal, para a Europa.
O slogan poderia ser: “Reduzir a distância entre viver e viver bem”. E esse é o núcleo da mensagem que queremos destacar. Porque numa sociedade que envelhece, não cabe resignação: cabe ação. E a ação que representa IBERLONGEVA dá voz a esta geração, constrói futuro e afirma que envelhecer já não é esperar o fim, mas abrir outra etapa de sentido.