Cuidar-se também cansa: quando o corpo se transforma numa exigência constante
Sempre quisemos viver mais. O que não sabíamos era o que implicava tentá-lo.
Gilgamesh foi o primeiro herói que não quis morrer. Depois de perder o seu melhor amigo, o rei de Uruk empreendeu uma viagem até ao fim do mundo em busca da planta da vida eterna. Conta-o a Epopeia de Gilgamesh, o relato épico mais antigo de que há conhecimento, escrito em tábuas de argila há mais de quatro mil anos. Encontrou-a. E uma serpente roubou-lha enquanto dormia. Desde então, dizem, as serpentes mudam de pele. Como se tivessem herdado, sem direito, uma forma de eternidade que não lhes pertencia.
Há quatro milénios, alguém já intuíra que a vida eterna não se perde a lutar, mas num descuido. Que escapa sempre quando baixamos a guarda.
Desde então, o ser humano nunca mais parou. Os alquimistas medievais procuraram a pedra filosofal. Os conquistadores subiram rios sem mapa perseguindo uma promessa que ficava sempre um pouco mais além. As religiões ofereceram continuidade onde a vida se interrompe. A ciência moderna sequenciou o genoma, identificou os telómeros, estudou as zonas azuis do planeta onde muitos chegam aos cem anos com uma serenidade que desconcerta.
O “elixir da juventude” mudou de nome em cada época. Mas a procura é a mesma. E hoje, pela primeira vez na história, parece que quase o encontrámos. Não num frasco. Não numa planta submarina. Mas num conjunto de práticas quotidianas, mensuráveis, reproduzíveis, que prometem o que nenhum alquimista pôde cumprir: um corpo que não se renda.
Sabemos quase tudo. Ou assim o julgamos. Porque, em saúde, cada certeza dura o tempo que demora a publicar-se o estudo seguinte que a matiza. Sabemos o que comer e em que quantidades. Sabemos quanto nos devemos mover, como treinar a força para não perder massa muscular com os anos, como regular o sono, como gerir o cortisol. Sabemos que o jejum intermitente prolonga a vida, que a meditação reduz a inflamação crónica, que a solidão mata quase tanto como fumar. Nunca tínhamos tido tanto conhecimento sobre o corpo. E nunca o tínhamos vigiado tanto.
O cuidado do corpo deixou de ser uma escolha pessoal para se transformar numa responsabilidade moral.
Quem não cuida do seu corpo já não é simplesmente alguém que vive como quer. É alguém que falha. Que não se esforça o suficiente. Que desperdiça o privilégio de saber.
Woody Allen disse: “Não temo a morte, só não gostaria de estar lá quando isso acontecer.”
Há nessa frase algo mais do que humor. Há uma verdade incómoda: não é a morte o que inquieta, mas a experiência de a atravessar. Não o fim em abstrato, mas o processo. E, no fundo, também não é só esse instante, mas tudo o que o precede: a vigilância constante, a gestão diária de um corpo que sentimos poder falhar em qualquer momento.
O corpo ocupou sempre um lugar central na cultura. Primeiro foi a imagem: a beleza como capital social, o físico como sinal de estatuto ou de virtude. Depois chegou a manutenção: o ginásio, a dieta, a figura como resultado de esforço e disciplina. Agora há uma camada mais, mais profunda e mais exigente: a prevenção. O corpo já não é apenas algo que se vê. É algo que se gere com vista a um futuro que pode prolongar-se por décadas além daquilo que qualquer geração anterior teve de planear.
Chegar a mais anos, sim. Mas fazê-lo com vitalidade, autonomia, lucidez. Sem deterioração visível. Sem dependência. Sem que a passagem do tempo se note demasiado. A longevidade tornou-se uma estética e uma ética ao mesmo tempo. E a margem entre ambas é, cada vez, mais estreita.
Aqueles que resistem ao envelhecimento com demasiada determinação — rotinas extremas, intervenções estéticas, uma imagem cuidadosamente imutável — são julgados por excesso. Aqueles que deixam de se “manter” segundo os padrões vigentes são-no por defeito. Como se envelhecer continuasse a ser um território em que qualquer posição é questionável. Um campo onde não é claro o que é permitido, mas é claro que há sempre qualquer coisa errada.
Durante muito tempo, essa pressão recaiu quase exclusivamente sobre as mulheres. O corpo feminino foi historicamente o mais vigiado, o mais comentado, o mais exposto ao juízo do tempo. Mas isso também está a mudar. A visibilidade do corpo masculino na maturidade — no espaço público, nos meios de comunicação, nas redes sociais — foi transformando o envelhecimento num assunto igualmente observado para os homens. O corpo, em todos os casos, deixou de ser um lugar para habitar, para se transformar em algo a otimizar.
E é aqui que aparece o cansaço. Não o cansaço físico de quem treinou intensamente ou dormiu pouco. Mas outro tipo de cansaço, mais difuso e mais difícil de nomear: o de estar permanentemente atento. O de planear, medir, ajustar, rever. O de saber que qualquer pausa pode significar retrocesso. O de transferir a lógica do rendimento para o único espaço que deveria ficar a salvo dela: o próprio corpo.
Numa cultura em que o bem-estar se tornou indústria, em que os indicadores de saúde se partilham nas redes como se fossem conquistas profissionais, em que existe um vocabulário inteiro dedicado a quantificar o estado do corpo, cuidar-se e vigiar-se tornaram-se quase indistinguíveis. E, quando isso acontece, o cuidado perde a sua natureza original. Deixa de ser um gesto para consigo próprio para se transformar numa exigência que vem de fora.
Gilgamesh voltou a casa sem a planta da imortalidade. Segundo o poema, foi então que encontrou algo melhor: a compreensão de que a vida tem valor precisamente porque termina. Que o elixir, se o tivesse obtido, teria sido também uma forma de vazio.
Não se trata de abandonar o cuidado. Trata-se de recuperar o seu sentido. Poder cuidar-se sem se vigiar tanto. Poder estar bem sem ter de o demonstrar. Poder parar um dia sem sentir que se está a falhar em alguma coisa.
“Não te lamentes por envelhecer, é um privilégio negado a muitos.” Disse Mark Twain, escritor e humorista norte-americano do século XIX.
A frase tem razão. Mas fica aquém. Porque viver mais também implica algo que nem sempre sabemos sustentar: conviver com a exigência de o fazer melhor. Mais saudável, mais consciente, mais disciplinado.
Como se ao tempo extra correspondesse, necessariamente, uma versão optimizada de nós próprios.
E é aí que aparece a armadilha. Porque viver mais nem sempre é viver melhor. Às vezes é viver mais atento. Mais exigido. Mais vigiado.
Por isso, talvez, o verdadeiro desafio não seja prolongar a vida, mas aprender a habitá-la sem a transformar num projeto constante de melhoria. Não fazer tudo de forma perfeita, mas fazê-lo de forma vivível. Não otimizar cada dia, mas poder estar nele sem sentir que falta sempre alguma coisa.
Porque o verdadeiro elixir nunca foi deter o tempo. Foi poder continuar dentro da vida sem ter de demonstrar, a cada momento, que se está a fazê-lo bem.