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10/07/2026

"Somar anos não tem de significar aguentar mais. Tem de significar viver melhor"

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Uma sociedade longeva implica desafios urgentes que temos de enfrentar já hoje. Dizer que o tempo passa é outra obviedade inexorável. Quem não quer uma vida longa e, sobretudo, saudável? A esperança de vida das crianças que nascem hoje ronda já os 100 anos. Mais ainda, as projeções indicam que nas próximas décadas Espanha ultrapassará o Japão como o país com maior qualidade e esperança de vida do mundo.

É isto que há anos estuda Juan Martín, diretor do Centro Internacional sobre o Envelhecimento (CENIE), uma instituição dedicada a investigar o impacto social, económico e cultural da longevidade. A sua abordagem vai muito além da saúde ou das pensões tradicionais; centra-se na prevenção, na solidão, no idadismo, no futuro do trabalho, nos cuidados e, sobretudo, na transformação da forma como imaginamos a velhice. Falámos com ele sobre a arte de nos prepararmos para uma vida longa (e plena).

Começou a sua carreira a estudar a demência e o Alzheimer, mas hoje defende firmemente que uma sociedade longeva é, acima de tudo, uma nova oportunidade. Uma oportunidade para alcançar o quê?

Uma oportunidade para algo que a humanidade quase nunca tinha tido de equacionar: reformular o curso da vida quando o tempo disponível se alarga. Durante séculos, a existência foi mais breve e, por isso, mais rígida. Havia uma sequência quase obrigatória: formar-se, trabalhar, reformar-se e retirar-se aos poucos da vida pública. Esse guião deixou de ser suficiente. E quando muda algo tão profundo, não basta retocar uma cena; é preciso rever a obra inteira.

Uma sociedade longeva convida-nos a construir um modelo mais inteligente e mais humano, um modelo que não descarte talento por causa da idade, que não interprete a fragilidade como uma derrota e que compreenda que precisar de ajuda não equivale a perder voz, desejos, projetos ou direitos. A grande oportunidade está aí: transformar uma conquista biológica — viver mais — numa conquista cultural e social. Em vez de somar anos para prolongar a dependência, podemos abrir tempo para a saúde, a participação, a liberdade e a dignidade.

Em Espanha vive-se em média até aos 83 anos, mas a partir dos 61 costuma surgir algum tipo de incapacidade. Se o grande medo coletivo é sabermo-nos frágeis, como podemos encurtar esses 22 anos de distância entre estar vivo e viver bem?

O primeiro passo é olhar para essa distância de outra forma. Não falamos apenas de incapacidade; falamos de quanto tempo conservamos margem real para decidir sobre a nossa própria vida. O objetivo não é acrescentar anos sem mais, mas sim atrasar a entrada na fragilidade e evitar que ela se torne um destino. Muitas vezes uma queda não começa no dia em que alguém cai. Começa antes, numa perda de força que ninguém avaliou, numa medicação que provoca tonturas, numa visão que não foi revista, numa casa de banho que não foi adaptada ou numa tristeza silenciosa que foi apagando a vontade de sair.

Antecipar não é um luxo sanitário; é senso comum. Precisamos de cuidados preventivos orientados para o risco, exercícios de força e equilíbrio, nutrição, sono, saúde mental, estimulação cognitiva e habitações que acompanhem as mudanças do corpo. Mas também precisamos de bairros que convidem a caminhar, transportes acessíveis e tecnologias que não excluam ninguém. A saúde não se fabrica apenas nos hospitais. Cultiva-se nos hábitos, nos ambientes e nas relações do dia a dia.

O sistema de saúde está pensado para curar a doença, quando os cuidados preventivos deveriam ser o objetivo: evitar que ela apareça. A quem interessa que a população continue a adoecer?

Preocupa-me mais a estrutura de incentivos do que a teoria do vilão. As farmacêuticas têm interesses económicos, claro, como qualquer setor. Mas também desenvolvem medicamentos que salvam e melhoram vidas. Transformar tudo isto num filme com bons e maus é confortável, mas não ajuda muito.

O problema é que o sistema recompensa muito melhor a reparação do que a antecipação. Mede-se mais a atividade sanitária do que a saúde gerada. Financia-se com mais facilidade uma intervenção quando o dano já está feito do que um programa sustentado para o evitar.

Além disso, a prevenção tem um problema político: quando resulta, muitas vezes não se vê. Ninguém agradece uma diabetes que não apareceu, uma queda que não aconteceu ou uma dependência que foi adiada dez anos. É precisamente por isso que precisa de orçamento, indicadores, continuidade e prestígio profissional. Prevenir deveria ser tão importante como curar.

Em pouco mais de um século, a esperança de vida quase triplicou. Perante esta necessidade de repensar tudo a nível social e estrutural, o que é mais urgente mudar?

É urgente abandonar uma ideia herdada: a de que a idade distribui automaticamente o papel de cada pessoa. Aos vinte anos estuda-se, aos quarenta produz-se, aos sessenta reforma-se e depois logo se vê. Esse mapa já não descreve o território. Precisamos de instituições capazes de acompanhar transições: universidades abertas ao longo de toda a trajetória de vida, empresas que valorizem o contributo e não apenas a data de nascimento, habitações adaptáveis, cidades pedonais, cuidados profissionais e ambientes que não transformem a autonomia numa prova de resistência.

Pensemos numa casa. Deveria poder acompanhar diferentes etapas sem se tornar inimiga: casas de banho transformáveis, boa luz, espaços flexíveis, tecnologia amigável, zonas que permitam companhia sem perder intimidade. Não é design "para idosos", é design para a vida real. A revolução demográfica não se resolve com uma única medida. Atravessa a educação, o emprego, a saúde, a cultura, a fiscalidade, os cuidados e as formas de convivência.

Costumamos associar a felicidade ao sucesso, mas o senhor garante que são conceitos diferentes. Em que se diferenciam, especialmente ao fazermos anos?

O sucesso tem público. A felicidade tem intimidade. O sucesso costuma ver-se de fora: o cargo, o reconhecimento, o património, a influência. A felicidade aparece num lugar menos visível, na forma como uma pessoa se habita, nos seus afetos, na sua serenidade, no seu propósito, na possibilidade de se olhar sem demasiada dívida consigo própria.

Com os anos, cada um faz uma edição mais honesta da sua própria história. Algumas ambições foram combustível; outras eram ruído bem vestido. Podemos ter uma carreira impecável e uma tarde de domingo muito vazia. E podemos ter levado uma vida discreta e sentir que construímos algo valioso: uma família, uma amizade, uma comunidade, uma forma bonita de estar no mundo.

Não estou a romantizar a falta de recursos. A tranquilidade material importa, e muito. Mas o sucesso não esgota a felicidade. A felicidade parece-se mais com estar em paz consigo mesmo e ter pessoas para amar e por quem se sentir amado.

A palavra envelhecimento está associada a problemas e perdas, mas fazer anos é a única forma de continuarmos vivos. Como podemos romper com este estigma?

Temos de deixar de usar o envelhecimento como sinónimo de decadência. Fazer anos não é estragar-se; é continuar a acontecer.

O problema é um olhar demasiado estreito. A velhice pode incluir perda, doença ou dependência, claro. Mas não se define apenas por isso. Também pode trazer liberdade, experiência, desejo, memória, cuidado, aprendizagem, criatividade e uma relação mais serena com o que é importante.

O estigma quebra-se mudando palavras, imagens e decisões. Uma campanha, uma oferta de emprego, uma aplicação, um trâmite administrativo ou um título podem ampliar ou encolher o lugar social das pessoas idosas. Quando uma empresa deixa de formar alguém porque tem 58 anos, também está a fabricar uma ideia de velhice.

Não precisamos de a adoçar. Precisamos de a ver por inteiro. A velhice não é uma caricatura de um corpo frágil; é uma biografia com espessura.

Apenas 25% da nossa longevidade depende do ADN; os restantes 75% respondem às nossas decisões diárias. Temos consciência de até que ponto somos donos do nosso próprio destino biológico?

Somos menos donos do que prometem os discursos individualistas e mais responsáveis do que por vezes nos resignamos a acreditar. A genética importa, mas não trabalha sozinha. Todos os dias tomamos decisões que orientam a nossa trajetória: mexermo-nos ou não, dormir ou não dormir, fumar ou não fumar, comer de uma forma ou de outra, manter relações, aprender, gerir o stress, pedir ajuda. Mas essas decisões não ocorrem no vazio; estão condicionadas pelo rendimento, pelo bairro, pelo trabalho, pelo tempo disponível, pela educação, pela poluição ou pela solidão.

Por isso convém fugir de dois erros: o fatalismo e a culpabilização. Não estamos condenados pelo ADN, mas também não podemos dizer a alguém para se cuidar como se tudo dependesse do caráter e da vontade.

A boa política pública é aquela que torna a opção saudável na mais próxima, fácil e possível. O resto, muitas vezes, é uma recomendação bonita num ambiente impossível.

Perante a eterna obsessão em desafiar a biologia, surgiram práticas como o biohacking. O que pensa? Há algo profundamente elitista nessa ideia de comprar tempo e saúde?

Interessa-me muito a ciência. Desconfio mais da estética da promessa.

A investigação sobre o envelhecimento pode transformar a medicina. Compreender como se deterioram as células, como surge a fragilidade ou como se pode atrasar o dano biológico abre uma fronteira apaixonante. Aí há conhecimento sério e necessário.

O problema surge quando essa conversa se transforma numa montra de luxo: exames caríssimos, suplementos da moda, dispositivos que medem cada gesto e clínicas que vendem a otimização da vida como se fôssemos uma aplicação por atualizar. Há ciência, sim; mas também há muito marketing de bata branca.

O risco elitista é evidente: que os avanços cheguem primeiro a quem os pode pagar e que a boa saúde em idades avançadas se torne numa nova fronteira de desigualdade. O verdadeiro desafio não é que poucos comprem mais anos de bem-estar, mas sim democratizar aquilo que já sabemos que funciona: prevenção, diagnóstico precoce, cuidados de saúde primários, exercício, nutrição, saúde mental, habitação segura e comunidade.

O futuro não devia consistir em viver melhor apenas se se puder pagar por isso.

Então, existe o risco de a longevidade aumentar ainda mais as desigualdades sociais?

Sim. E seria um dos grandes fracassos desta transformação.

Os anos ganhos não significam o mesmo para todos. Uma pessoa com recursos pode transformar esse tempo acrescentado em formação, viagens, projetos, cuidados de qualidade ou novas formas de participação. Outra pode vivê-lo como espera, precariedade, dependência ou solidão.

Não envelhece da mesma forma quem trabalhou toda a vida num emprego fisicamente muito exigente e quem teve mais proteção. Não envelhece da mesma forma quem vive num bairro com serviços e quem os tem longe. Não envelhece da mesma forma quem pode pagar ajuda e quem depende de uma lista de espera.

Por isso, esta transformação deve ser pensada como uma política de equidade. Celebrar que vivemos mais não basta; é preciso perguntar em que condições e para quem.

Clint Eastwood diz: «Levanto-me todas as manhãs e não deixo entrar o velho [que há em mim]». Não há também uma dimensão mental e cultural na forma de envelhecer?

Sim, mas a frase precisa de um matiz. Não se trata de expulsar o velho como se envelhecer fosse uma vergonha. Trata-se de não deixar entrar o estereótipo, essa voz cultural que nos diz que já não devemos aprender, já não devemos começar, já não devemos desejar, já não devemos incomodar.

O ambiente pesa muitíssimo. Se, durante anos, uma pessoa recebe a mensagem de que já não está para certas coisas, pode acabar por pedir licença para viver. Por vezes não envelhecemos só por biologia; também envelhecemos porque nos vão retirando expectativas.

Mas cuidado com transformar tudo numa questão de atitude. Há quem precise de menos frases motivadoras e de mais apoio real. O ânimo conta, claro; mas também contam uma habitação acessível, uma pensão suficiente, uma rede de cuidados, uma cidade amável e um sistema de saúde que funcione.

Uma atitude luminosa ajuda a caminhar. Um ambiente bem desenhado evita que caminhar seja uma prova de resistência.

O que é que entendemos completamente mal sobre as pessoas idosas?

Que são "um grupo". Esse é o grande erro.

A expressão tranquiliza quem planeia, mas esmaga a realidade. Não há uma velhice; há muitas velhices. E, curiosamente, à medida que fazemos anos, parecemo-nos menos uns com os outros, não mais. Cada pessoa acumula trajetórias, decisões, lutos, aprendizagens, recursos, desejos e formas de olhar para o mundo.

Também confundimos apoio com infantilização. Uma pessoa pode precisar de ajuda para uma tarefa concreta e conservar perfeitamente critério, humor, desejo ou autoridade moral. A dependência num aspeto não apaga a cidadania.

E esquecemo-nos de algo fundamental: muitas pessoas idosas (sobretudo mulheres) não só recebem cuidados; também os sustentam. Nas famílias, nas associações, nos bairros, na cultura, no voluntariado, na economia doméstica. O problema é que se conta pouco, porque o cuidado que não faz barulho costuma parecer invisível.

Como muda a ideia de projeto de vida quando uma pessoa pode ter várias vidas dentro da mesma vida?

Deixa de ser uma linha reta e parece-se mais com uma constelação.

Formamo-nos, trabalhamos, cuidamos, paramos, voltamos a aprender, mudamos de profissão, atravessamos lutos, iniciamos relações, reduzimos o ritmo ou encontramos novas responsabilidades. Já não há um único grande projeto, mas sim vários momentos de sentido.

Uma pessoa de 55 anos pode precisar de se reformar profissionalmente porque o seu setor mudou. Uma de 67 pode querer empreender algo pequeno, não para ficar rica, mas para se sentir útil. Uma de 74 pode começar uma relação, escrever, ensinar, cuidar de outra forma ou participar num projeto comunitário.

Nem todo o projeto de vida tem de ser produtivo em termos económicos. Por vezes o projeto é aprender música, recuperar uma amizade, acompanhar alguém, cultivar uma horta partilhada ou reconciliar-se com o próprio tempo.

A pergunta já não é apenas "o que queres ser quando fores grande", mas sim o que queres continuar a fazer com o que sabes, com o que desejas e com o que ainda podes dar.

Vamos rumo a uma sociedade onde conviverão cinco gerações ao mesmo tempo. Isso será uma riqueza ou uma fonte de conflito?

Pode ser ambas as coisas. Será conflito se o transformarmos numa competição de queixas: jovens contra idosos, salários contra pensões, habitação contra cuidados. Esse discurso é perigoso porque simplifica mal uma realidade complexa.

Mas pode ser uma riqueza enorme se desenharmos espaços de cooperação. Cinco gerações não são uma ameaça; podem ser uma biblioteca viva. Uma pessoa jovem pode trazer novas ferramentas, sensibilidade a outras linguagens e rapidez de adaptação. Uma pessoa idosa pode trazer memória, critério e uma relação diferente com o tempo.

Isto sim: não atribuamos virtudes por idade. Há jovens muito conservadores e idosos extraordinariamente inovadores. O importante não é misturar datas de nascimento, mas combinar capacidades, experiências e olhares.

Nas organizações, a diversidade geracional devia ser gerida com a mesma seriedade que outras diversidades: formação recíproca, mentoria bidirecional, papéis flexíveis e reconhecimento. A convivência não se improvisa, desenha-se.

Durante décadas falou-se do envelhecimento como uma ameaça económica. Estamos a começar a descobrir também o seu potencial económico, cultural e social? A economia da longevidade pode ser um setor estratégico, sobretudo em Espanha e Portugal.

Sim, embora ainda olhemos para uma realidade nova com óculos antigos.

Durante décadas falou-se do envelhecimento quase só em termos de despesa: pensões, saúde, dependência. Tudo isso existe e tem de ser abordado com seriedade. Mas se olharmos apenas para o custo, vemos meia paisagem.

A economia da longevidade não consiste em vender produtos "sénior". Consiste em redesenhar setores inteiros para uma sociedade que vive mais e exige qualidade: habitação, turismo, saúde, formação, cultura, alimentação, desporto, tecnologia, serviços financeiros, mobilidade e cuidados.

Espanha e Portugal têm uma oportunidade muito concreta: transformar o bem-estar num setor estratégico. Não só pelo clima ou pelo património, mas por uma forma de viver que combina segurança, gastronomia, proximidade, território, sociabilidade e uma cultura quotidiana de relação.

Mas o potencial não se aproveita apenas dizendo que somos atrativos. É preciso profissionalizar os cuidados, desenhar habitação adaptável, oferecer turismo de calma e aprendizagem, criar serviços de confiança e desenvolver tecnologias utilizáveis. O bem-estar não pode ficar-se pelo postal; tem de se tornar num sistema.

Espanha será o país onde se viverá mais e melhor. Já lidera a esperança de vida a nível europeu, com mais de 83 anos. E as previsões dizem que será o país mais longevo do mundo, ultrapassando o Japão. Quando é que isso vai acontecer? O que nos levou a estar no topo do ranking?

As projeções mais citadas situam esse cenário por volta de 2040. Mas convém dizê-lo com prudência: uma projeção não é uma profecia. Pode cumprir-se, acelerar-se ou deteriorar-se consoante o que fizermos hoje.

Espanha está no topo por uma combinação de fatores: sistema de saúde, alimentação, clima, avanços em saúde pública, vida na rua, relações sociais e uma forma de convivência que, embora se tenha enfraquecido, continua a ter muito valor. A praça, o passeio, a sobremesa ou a conversa não são apenas hábitos agradáveis; fazem parte de uma ecologia de bem-estar.

Ora bem, a verdadeira liderança não consiste em ganhar uma classificação demográfica. Consiste em que os anos acrescentados cheguem com saúde, independência, companhia e sentido. Espanha pode ser um laboratório mundial de longevidade saudável se transformar as suas vantagens culturais em estratégia pública.

É importante a prevenção a nível de saúde física, bem como a saúde cognitiva, financeira e, sobretudo, a emocional. Podemos aspirar a este estado total de bem-estar?

Podemos aspirar a um bem-estar amplo, não a uma perfeição impossível. A vida nunca vai ter todos os indicadores no verde. O importante é conservar recursos suficientes para nos recompormos quando algo falha e para continuarmos a tomar decisões sobre o que nos importa.

A saúde física é essencial, mas também o é a cognitiva: continuar a aprender, orientar-se num mundo complexo, não ficar excluído pela velocidade da mudança. Importa a financeira: uma existência mais longa sem alguma tranquilidade económica pode tornar-se numa fonte permanente de angústia. E importa a emocional: sentir pertença, propósito, reconhecimento e poder pedir ajuda sem vergonha.

Pensemos numa pessoa clinicamente estável, com uma análise impecável, mas que não dorme porque não sabe se poderá pagar os cuidados do companheiro. Está saudável? Em sentido estrito, talvez. Em sentido humano, não.

Este novo cenário obriga-nos a alargar a ideia de saúde. Não é apenas ausência de doença, mas a possibilidade de viver com equilíbrio, sentido e companhia.

Exatamente: outro tema importante é a invisibilidade social e a solidão não desejada. Estamos a perder o sentido de comunidade, de vizinhança. Insiste sempre que é urgente desenvolver a empatia, mas como conseguimos isso?

A empatia não se decreta, pratica-se. Uma sociedade não se torna empática porque uma campanha o diga. Torna-se empática quando as pessoas voltam a reconhecer-se umas às outras. Precisamos de recuperar a textura da comunidade: lugares onde alguém repare numa ausência, num cansaço, numa mudança de ânimo, numa porta que já não se abre.

Isso pode acontecer num clube de leitura, numa horta urbana, numa escola que partilha atividades com pessoas idosas, num centro de saúde que prescreve vínculo, numa comunidade de vizinhos que não se resume à conta da escada ou num espaço cultural onde diferentes idades se encontram sem pedir licença.

Também precisamos de deixar de separar tanto as etapas da vida. Se as crianças estão num sítio, os jovens noutro, os adultos a correr e as pessoas idosas em espaços à parte, depois não nos podemos surpreender por faltar empatia.

Não se trata de invadir a intimidade de ninguém. Trata-se de que ninguém fique fora do mapa. A melhor tecnologia social continua a ser alguém saber que existimos e sentir a nossa falta se desaparecermos.

Em média, as mulheres vivem 86 anos e os homens 81. Mas as mulheres vivem mais tempo com má saúde. Uma nova injustiça que se pode chegar a reverter?

Sim, mas primeiro é preciso olhar de frente para isso. Não é uma curiosidade estatística; é uma desigualdade acumulada.

O facto de as mulheres viverem mais anos e, no entanto, passarem mais tempo com má saúde obriga-nos a incorporar verdadeiramente a perspetiva de género na longevidade. Não falamos apenas de biologia. Falamos de trajetórias laborais mais precárias, pensões mais baixas, carga de cuidados, dor normalizada, doenças cardiovasculares subdiagnosticadas, menopausa pouco acompanhada, osteoporose, saúde mental, solidão e uma medicina que durante demasiado tempo tomou o corpo masculino como referência por defeito.

Há mulheres que cuidaram a vida inteira e chegam à idade avançada com o seu próprio corpo à espera de vez. Reverter isto exige prevenção musculosquelética, treino de força, saúde cardiovascular específica, investigação clínica melhor desenhada, atenção séria à menopausa, corresponsabilidade nos cuidados e segurança económica.

Somar anos não pode significar aguentar mais. Tem de significar viver melhor.

Qual é a conversa sobre envelhecimento que ninguém ainda se atreve a ter?

A conversa sobre os cuidados antes de os cuidados serem urgentes. Como queremos ser cuidados se perdermos autonomia. Quem vai cuidar. Com que recursos. Em que condições. Que limites queremos impor. Que decisões desejamos deixar escritas. Como enfrentamos o declínio cognitivo, a dependência, o fim de vida e a solidão de quem cuida.

Em muitas famílias fala-se antes sobre património do que sobre responsabilidades, tempos, renúncias ou acompanhamento. E quando chega a dependência, tudo aquilo que não foi falado surge de repente.

A conversa pendente é social e familiar ao mesmo tempo. Uma sociedade longeva precisa de uma política séria de cuidados, mas também de uma ética dos cuidados. Não podemos continuar a apoiar-nos em mulheres esgotadas, empregos mal pagos ou boa vontade improvisada.

Ter ganho anos foi um triunfo civilizacional. Cuidar melhor será a prova de se realmente compreendemos esse triunfo.

 

Fonte: Igluu